Por Marco Severini, Espresso Italia
Um novo e grave capítulo da tensão que mantém a Faixa de Gaza sob fogo foi registrado neste sábado e domingo, quando ataques israelenses deixaram, segundo os hospitais locais, mais de 30 mortos. As estruturas sanitárias Shifa e Nasser informaram que entre as vítimas há pelo menos sete crianças, elevando o balanço humano de uma sequência de operações que ameaçam desestabilizar ainda mais os já frágeis alicerces da diplomacia regional.
Segundo relatos clínicos, os bombardeios atingiram um condomínio em Gaza City e uma tenda em Khan Younis. O Hospital Shifa registrou que o ataque em Gaza City vitimou uma mãe, três crianças e um parente. O Hospital Nasser relatou que o ataque em um campo de tendas provocou um incêndio que matou um pai, seus três filhos e três sobrinhos — vítimas, em grande parte, do deslocamento e da vulnerabilidade que marcam este teatro de guerra.
As hostilidades começaram durante a madrugada e se estenderam pela manhã. Fontes palestinas reportaram ainda um ataque conduzido por drones no distrito de Sheikh Radwan, no norte de Gaza City, que atingiu a estação de polícia local e causou pelo menos sete mortes — três agentes e quatro detentos, segundo as mesmas fontes.
Em nota oficial divulgada pelos canais militares, as Forças de Defesa de Israel (IDF) justificaram as operações como golpes contra alvos considerados terroristas. A declaração aponta que, em represália ao que foi descrito como violação do cessar-fogo — quando oito combatentes teriam sido identificados saindo de infraestruturas subterrâneas na parte oriental de Rafah —, foram atingidos quatro comandantes e outros militantes pertencentes a Hamas e à Jihad Islâmica. A nota acrescenta que depósitos de armas, um local de produção de armamentos e dois lançadores foram igualmente atacados na parte central da Faixa.
Este episódio soma-se a sinais de uma tectônica de poder em movimento: após meses de negações, autoridades israelenses reconheceram que dados locais que apontam para mais de 71 mil palestinos mortos desde 7 de outubro de 2023 são plausíveis — uma admissão que, na prática, equivale a uma avaliação estratégica sobre a escala da crise humanitária e suas implicações geopolíticas.
Organizações internacionais e registros locais também têm documentado a pulverização do tecido familiar em Gaza: mais de 2.700 famílias teriam sido completamente apagadas dos registros e outras 6.000 contam com apenas um sobrevivente, segundo relatórios citados por agências de monitoração humanitária. Tais números tornam-se fatores determinantes no redesenho de fronteiras invisíveis — não de um mapa territorial, mas das linhas de coesão social e legitimidade política na região.
Como analista que observa o tabuleiro do Levante com a paciência de um enxadrista, sublinho que cada movimento militar é, simultaneamente, um cálculo de segurança e um gesto com profundo impacto político e simbólico. Os ataques relatados hoje evidenciam não apenas uma sequência de operações táticas, mas um potencial redesenho das influências na Faixa de Gaza, com consequências humanitárias que continuarão a ressoar em fóruns multilaterais.
Enquanto as fanfarras comunicacionais proclamam alvos militares atingidos, os corredores dos hospitais continuam a registrar vítimas civis — e crianças — que dificilmente se encaixam nas categorias de legitimidade estratégica. O equilíbrio entre justificativa operacional e custo humano permanece, assim, a peça central do próximo movimento neste tabuleiro perigoso.





















