Por Riccardo Neri — Analista de Inovação e Infraestrutura Digital
Prever uma erupção vulcânica com antecedência suficiente para alertar autoridades e populações é um dos desafios centrais das ciências da Terra. Um estudo publicado na Nature Communications apresenta agora um método inovador, batizado de Jerk, capaz de detectar sinais precoces de erupção usando apenas um sismômetro de banda larga.
Desenvolvida por pesquisadores do Institut de Physique du Globe de Paris e do GFZ Helmholtz-Zentrum für Geoforschung, a técnica identifica assinaturas transientes de muito baixa frequência no movimento horizontal do solo — variações na aceleração e na inclinação — associadas às primeiras fases de intrusão magmática. Essas assinaturas, denominadas sinais de Jerk, têm amplitudes da ordem de poucos nanômetros por segundo cúbico e são interpretadas como processos dinâmicos de difracturação das rochas que antecedem uma erupção.
O método foi testado de forma operacional e automática ao longo de uma década no observatório vulcanológico do Piton de la Fournaise, na ilha de La Réunion, um dos vulcões mais ativos e monitorados do mundo. Entre 2014 e 2023, o sistema previu 92% das 24 erupções registradas, emitindo alertas que variaram entre poucos minutos e mais de oito horas antes da emergência do magma. Desde 2014 o sistema funciona continuamente em tempo real, com correções aplicadas para fenômenos como as marés terrestres.
Os resultados mostram também uma taxa de falsos positivos de 14% sobre o total de alarmes. No entanto, os pesquisadores enfatizam que, mesmo nesses casos, foram observadas intrusões magmáticas reais que não evoluíram para erupção — episódios às vezes descritos como erupções «abortadas». Isso transforma o Jerk em uma ferramenta valiosa não só para prever erupções plenas, mas também para monitorar a dinâmica magmática interna que pode não culminar em extrusão superficial.
Uma das inovações práticas do método é sua simplicidade operacional: em vez de depender de grandes redes de sensores e análises estatísticas complexas, o Jerk permite um sistema de alerta precoce automatizado, que se ativa assim que o sinal ultrapassa uma limiar calibrado. Essa abordagem reduz a latência entre a detecção e o aviso, um fator crítico quando o tempo de resposta é curto.
Do ponto de vista de infraestrutura, a técnica traduz-se em uma camada adicional no «sistema nervoso» das cidades e territórios vulcânicos: um alicerce digital que integra sinais mínimos do terreno e os converte, em tempo real, em informação acionável. Como observa Philippe Jousset, coautor do estudo e pesquisador do GFZ, a originalidade do trabalho reside no fato de o método Jerk ter sido validado em operação contínua e não supervisionada por mais de dez anos.
Para a escalabilidade regional e europeia, ainda há desafios: a transferência do método para outros contextos vulcânicos exige calibração local, avaliação de ruídos e da correlação entre sinal e processos magmáticos específicos. Contudo, os resultados em La Réunion sugerem que, com a correta parametrização, um único sismômetro pode atuar como um nó crítico numa arquitetura de monitoramento resiliente, ampliando a capacidade de resposta das autoridades e reduzindo riscos para as populações.
Em suma, o Jerk representa um avanço pragmático: menos dependência de grandes volumes de dados e mais foco na sensibilidade do sensor e na robustez do algoritmo. É mais uma camada funcional na infraestrutura de segurança geológica, transformando pequenos deslocamentos do solo em alertas que salvam tempo — e potencialmente vidas.
















