Por Marco Severini — Ao adquirirem uma igreja desacralizada do séc. XII no sul do País de Gales, Lucy e Rhys Thomas anteciparam desafios de uma restauração complexa. O que poucos poderiam prever é que a nova área de convívio da residência repousaria literalmente sobre uma necrópole medieval: mais de 80 esqueletos foram exumados à medida que as lajes do chão eram levantadas para acomodar confortos contemporâneos.
A construção, a St. Peters, é um monumento classificado de Grau I, com fundação datada de 1142. O episódio converteu o canteiro em um verdadeiro thriller arqueológico: “O arqueólogo nos informou que, na melhor das hipóteses, encontraríamos cinco ou seis corpos”, relembra Lucy. “Em vez disso, à medida que escavávamos, surgiam dezenas — famílias inteiras, casais, pais com filhos.”
Do ponto de vista histórico, a ocorrência não é fortuita. Enterros no interior de muros consagrados eram privilégios destinados a clérigos e membros das famílias abastadas; a descoberta, portanto, oferece uma janela íntima para a sociedade galesa de quase um milênio atrás. Trata-se de uma imagem congelada da estratificação social medieval, onde a geografia do poder se sobrepunha às práticas funerárias.
Ao contrário de decisões precipitadas — suspensão indefinida das obras ou remoção sistemática dos restos —, os proprietários optaram por uma solução de convivência. Após constatarem a presença de agrupamentos familiares, Lucy e Rhys decidiram manter os corpos em seu local final de descanso e prosseguir com a obra ao redor. “No início foi desconcertante, mas nos habituamos. Decidimos deixá-los onde estavam e continuar a construir ao redor deles”, afirmou Lucy.
O projeto arquitetônico é audacioso e provocador: um sistema de aquecimento de piso foi instalado sobre o sítio sepulcral para assegurar o conforto moderno; lastras originais em pedra foram reaproveitadas para criar um pátio exterior distinto; torre, sinos e muralhas com cerca de 900 anos foram preservados. No interior, convivem agora uma área de bar e uma banheira de hidromassagem — elementos simbólicos do encontro entre o sagrado, o profano e o macabro.
Do ponto de vista técnico e legal, o episódio coloca questões de ética arqueológica, conservação do patrimônio e regulamentação. Em edificações listadas, intervenções exigem equilíbrio entre integridade histórica e adaptação funcional. A decisão dos Thomas segue uma linha de pragmatismo contemplativo: um movimento decisivo no tabuleiro onde memória e utilidade disputam espaço.
Rhys, com o pragmatismo do proprietário que precisa aprender na prática, confessou que muito do trabalho decorreu de pesquisa autodidata. “Foi desafiador; aprendemos no percurso — e pesquisamos bastante no Google”, disse, com ironia britânica. Quatro anos depois, a St. Peters não é mais apenas um vestígio da história galesa: é uma residência de luxo onde o limiar entre vivos e mortos se mede em centímetros de isolamento térmico.
Como analista de geopolítica cultural, observo neste caso uma espécie de redesenho de fronteiras invisíveis: entre patrimônio e propriedade privada, entre memória coletiva e uso contemporâneo, entre dever de preservação e imperativos de habitação. A solução dos Thomas é um exemplo de convivência pragmática que desafia convenções museológicas, ao mesmo tempo em que exige diálogo com autoridades arqueológicas, comunitárias e de conservação — os novos alicerces, frágeis, da diplomacia patrimonial.
Em última instância, a história da St. Peters é um lembrete de que, na tectônica do poder e da memória, cada intervenção humana é um movimento estratégico. Como em uma partida de xadrez, toda jogada altera a configuração do tabuleiro: preservar, adaptar ou remover são decisões que reverberam muito além do interior de uma capela.






















