Por Marco Severini — Em um movimento que exige leitura cuidada do tabuleiro geopolítico regional, ao menos cinco pessoas morreram em duas explosões distintas ocorridas no sul do Irã, eventos que as autoridades locais classificaram como resultado de vazamentos de gás e que, segundo o governo, não configuram ataques a alvos militares.
Segundo a agência Mehr, quatro vítimas perderam a vida em uma explosão doméstica provocada por um suposto vazamento de gás na cidade de Ahvaz. Equipes de resgate e o corpo de bombeiros permanecem no local, realizando a varredura entre escombros e remoção de destroços na busca de possíveis pessoas ainda presas.
No porto de Bandar Abbas, às margens do Golfo Pérsico, um segundo episódio atingiu um prédio residencial de oito andares, deixando pelo menos uma pessoa morta e 14 feridas, conforme divulgou Mehrdad Hasanzadeh, diretor da Gestão de Crises do governo da província de Hormozgan, em informações veiculadas pela agência Tasnim, vinculada aos Guardiões da Revolução. A emissora estatal também atribuiu a detonação a uma fuga de gás. Imagens do local mostram danos em um edifício de dois andares adjacente, além de veículos e estabelecimentos comerciais atingidos.
Em meio à circulação de informações nas redes, meios iranianos desmentiram relatos que anunciavam, em canais do Telegram, a suposta morte do comandante da Marinha dos Guardiões da Revolução, o contra‑almirante Alireza Tangsiri. A agência Tasnim qualificou essas mensagens como “completamente falsas”, atribuindo sua difusão a uma “operação psicológica anti‑iraniana”. A Marinha dos Guardiões também negou relatos de ataques por drones às suas bases na província de Hormozgan, assegurando que nenhuma instalação militar sofreu danos.
O episódio ganha contornos mais amplos quando colocado na tectônica de poder que atravessa o Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico: as explosões ocorrem num momento de renovada tensão entre o Irã e os EUA, que têm destacado uma considerável presença naval nas águas iranianas. Em declarações recentes, o presidente norte‑americano Donald Trump fez menções enérgicas sobre possibilidades de ação caso não haja progresso nas negociações sobre o programa nuclear iraniano ou se persistir a repressão a manifestantes.
Do ponto de vista estratégico — e com a cautela de quem evita conclusões precipitadas — trata‑se de um acontecimento que, mesmo quando oficialmente qualificado como acidente, tem o potencial de ser instrumentalizado narrativamente por múltiplos atores. Rumores sobre mortes de comandantes ou ataques a infraestruturas militares funcionam, muitas vezes, como peças numa operação psicossocial no tabuleiro regional: mesmo uma peça aparentemente lateral pode provocar movimentos decisivos nas relações de poder.
Autoridades locais mantêm a versão técnica do vazamento de gás, os serviços de emergência trabalham nas operações de resgate e investigação, e fontes estatais combatem ativamente informações discordantes. Resta ao observador atento monitorar a evolução dos laudos periciais e a reação dos atores externos, cuja presença militar na região já redesenha fronteiras invisíveis de influência e risco.
Enquanto isso, as famílias das vítimas aguardam esclarecimentos e o país assiste, em silêncio tenso, às múltiplas narrativas competindo por legitimidade.




















