Maria Antonietta (Letizia Cesarini, 38) e Colombre (Giovanni Imparato, 43) chegam ao palco do Sanremo carregando algo mais do que uma canção: trazem uma longa carreira nas margens do circuito independente, quinze anos de convívio amoroso e um sentido artístico que não se deixa reduzir a rótulos fáceis. A dupla, que já gravou junta o single “Luna di miele”, apresentou ao público o novo tema que defenderá no Ariston, “La felicità e basta”, e despista comparações imediatas — “Não somos os novos Al Bano e Romina, e nem os Coma_Cose”, afirmam com leve firmeza.
Ao serem projetados para a dimensão da grande praça mediática, os dois preferem manter o pé no trabalho: “É tudo muito bonito, mas sabemos que é uma etapa do nosso percurso”, diz Maria Antonietta, lembrando que permanecer autêntica é a única atitude possível diante de um público incerto. Colombre acrescenta o gesto artesanal: estão revisando cada detalhe da orquestração, “até o último botão da camisa”, preparando a representação sonora que melhor traduza a trajetória deles.
No palco do Ariston não será um espetáculo de artifícios desnecessários: ambos tocarão guitarra elétrica, e Maria Antonietta levará também um Omnichord, aquele sintetizador japonês de timbre peculiar que funciona como um pequeno dispositivo de memória afetiva sonora — um recurso que casa com a estética íntima da dupla. “Queremos a melhor representação do nosso percurso”, resume Colombre.
O nome artístico do cantor remete à literatura: Colombre é uma criatura tomada de um conto de Dino Buzzati — escolha que revela a relação da dupla com referências eruditas, mas também a consciência de que certas alusões podem fugir ao grande público. “Buzzati é gigantesco, mas talvez também seja desconhecido para o público mais amplo”, pondera ele. E Maria Antonietta, com a serenidade de quem cultiva longo diálogo com palavras e imagens, define-se como “cantautora, apaixonada por palavras, livros e poesia”. A paixão pela história e pela iconografia religiosa — herdada do pai, pintor de ícones e estudioso de teologia — completa o painel de uma artista que transforma memória em canção.
Sobre “La felicità e basta”, a recepção à definição é direta: não é uma balada romântica e tampouco um hino de autoajuda; é, nas palavras deles, uma canção com desígnio político. “A felicidade deveria ser um direito natural, não uma mercadoria a ser vendida após performance e conformidade”, diz Maria Antonietta. Colombre complementa com um diagnóstico social agudo: a máquina cultural e econômica nos retira a alegria para, em seguida, tentar revendê-la como produto. A canção, portanto, se coloca como um espelho do nosso tempo — um roteiro sutil que convida à reflexão sobre expectativas, pressão e a mercantilização dos afetos.
Na escolha por uma estética minimalista porém precisa, na recusa a rótulos fáceis e na ênfase no trabalho coletivo de criação, Maria Antonietta e Colombre representam um reframe cultural: a música pop como espaço de discussão e memória, e o festival como palco para um diálogo mais amplo sobre o que significa, hoje, ser feliz. Não é um ato de militância ruidosa, mas um gesto cotidianamente político — a canção como um pequeno ato de resistência e de afirmação do direito à alegria.
Para quem não os conhece, a apresentação no festival será um convite — e, se há algo que a dupla preza, é justamente despertar curiosidade. “Estamos tomando um passo de cada vez”, concluem. E, nesse compasso, o Ariston pode ser tanto uma vitrine quanto um espelho: a projeção coletiva de desejos, tensões e memórias que definem o nosso presente.






















