O Partido Democrático (PD) solicitou ao ministro da Cultura, Alessandro Giuli, a ativação imediata da Soprintendenza de Roma após reportagem que afirma que o rosto de um querubim restaurado na Basilica di San Lorenzo in Lucina, em Roma, lembraria o da primeira‑ministra Giorgia Meloni. A demanda foi formalizada em nota na qual os democratas classificam como inaceitável qualquer alteração arbitrária do patrimônio cultural.
Na nota, a líder do grupo do PD na Comissão de Cultura da Câmara, Irene Manzi, alerta para a possibilidade de violação do Código dos Bens Culturais e do Paisagem. “A hipótese che un intervento di restauro su un bene tutelato possa aver prodotto un’immagine riconducibile a un volto contemporaneo rappresenta una potenziale e grave violazione del Codice dei beni culturali e del paesaggio”, disse Manzi, lembrando que o código proíbe personalizações e intervenções que não estejam estritamente fundamentadas em critérios científicos e histórico‑artísticos.
Manzi acrescentou que “o patrimônio cultural italiano não pode ser dobrado a leituras impróprias nem transformado por operações que comprometam sua autenticidade e valor histórico” e pediu “un intervento immediato della Soprintendenza, finalizzato ad accertare i fatti, verificare la regolarità degli interventi effettuati e disporre il ripristino”. Para a parlamentar, a tutela dos bens culturais é um dever público e uma responsabilidade institucional que não admite ambiguidades nem atrasos.
Do outro lado do espectro político, a resposta veio de Fratelli d’Italia. A senadora Susanna Donatella Campione, membro da Comissão de Cultura do Senado e porta‑voz do partido da premiê, reagiu com ironia e acusou a oposição de “delírio místico”. Em nota, Campione chamou de “sconcertante” a exigência de que o ministro investigue se um rosto angelical intencionalmente reproduz o da líder do governo, e criticou a obsessão da esquerda por encontrar referências à Giorgia Meloni em toda parte.
“Siamo al delirio mistico, la sinistra pur di attaccare il governo chiede conto…”, declarou a senadora, sugerindo em tom provocativo que a mesma lógica poderia levar a pedidos de inclusão de rostos de outros líderes políticos no mesmo afresco. A declaração associa a iniciativa do PD a uma busca de confronto político que, segundo Campione, desvia a atenção de resultados institucionais positivos.
A administração da própria basílica também se manifestou. O responsável pelo templo afirmou, em termos lapidares, que “Angelo con volto di Meloni? Per me non è problema” — ou seja, para a direção da igreja, a semelhança percebida não constitui um problema relevante.
O episódio abre uma discussão que atravessa duas camadas: a preservação técnica e científica dos bens culturais — os alicerces da memória coletiva — e a instrumentalização política de uma interpretação visual. Como ponte entre cidadania e poder, é papel das instituições técnicas, como a Soprintendenza, esclarecer se houve intervenção fora dos critérios científicos, e das forças políticas evitar transformar a tutela do patrimônio em campo de batalha simbólica.
Enquanto a Soprintendenza não se pronuncia oficialmente, o caso permanece em observação e expõe a fragilidade do diálogo público sobre patrimônio em momentos de tensão política, lembrando que a arquitetura da lei exige procedimentos transparentes para amparar tanto a autenticidade das obras quanto a confiança dos cidadãos.






















