Sou Alessandro Vittorio Romano, observador dos ritmos urbanos e da saúde que floresce nas pequenas rotinas. Ao olhar para o marco de seis anos desde que a OMS declarou a emergência internacional pelo novo coronavírus, volto meu olhar sensível para as lições que o tempo nos mostrou: tanto as decisões tomadas nos primeiros dias quanto as reformas que brotaram depois.
Em 31 de dezembro de 2019, a organização recebeu o primeiro alerta vindo de Wuhan. O evento inicial parecia uma fresta na rotina global — como uma brisa que anuncia mudança — e, em poucos dias, o movimento se acelerou: em 13 de janeiro foi identificado o primeiro caso fora da China; em 20 de janeiro o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, convocou um Comitê de Emergência; em 26 de janeiro uma delegação de alto nível foi à China; e, em 30 de janeiro de 2020, com menos de 100 casos fora da China, o novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, foi declarado uma emergência de saúde pública de interesse internacional (PHEIC).
A epidemiologista Maria Van Kerkhove, que esteve na linha de frente desde o início e dirigiu interinamente o Departamento de Gestão de Ameaças Epidêmicas e Pandêmicas, faz um balanço claro e humano dessa trajetória. Ela lembra que críticas sobre suposta lentidão da OMS muitas vezes nascem de um olhar retroativo e da politização das decisões — em outras palavras, confundir o filme pronto com as cenas que eram possíveis de filmar naquele momento.
A resposta global foi uma colheita complexa: houve acertos, falhas e, acima de tudo, aprendizado. Revisões independentes impulsionaram reformas institucionais — entre elas, o fortalecimento do Regulamento Sanitário Internacional, a criação do novo nível de alerta chamado “emergência pandêmica” e o avanço do Acordo sobre Pandemias. São mudanças que nascem da experiência e que visam arar o solo para futuras safras de segurança sanitária.
Seis anos depois, porém, é fundamental dizer sem romantismos: Covid-19 não desapareceu. O vírus Sars-CoV-2 segue circulando, evoluindo, reinfectando e causando doenças graves, inclusive o Long Covid. Sentimos, todos, os ecos desta temporada — nos sistemas de saúde, nas memórias e no bem-estar coletivo. O período 2020–2021 foi de resposta aguda à emergência; os anos seguintes tornaram-se de adaptação, vacinação, vigilância e recuperação social.
A mensagem de Van Kerkhove para 2026 é simples e direta: devemos estar preparados, sem nos rendermos às ameaças. Preparar-se não significa apenas ter estoques e planos, mas cultivar uma respiração institucional e comunitária que permita reagir com rapidez e empatia, exercitando a resiliência como quem rega um jardim para que ele resista às mudanças de estação.
Neste legado, há também uma lição ética: aprender a separar a ciência da retórica política, a urgência do espetáculo e a política da empatia. As reformas implementadas mostram que os sistemas evoluem quando há reconhecimento de erros e vontade de mudança. A pandemia deixou uma marca indelével — não só na biologia do vírus, mas na paisagem social e nas rotinas de cuidado.
Convido o leitor a guardar estas lições como quem guarda sementes valiosas: elas só germinam se o solo for preparado. Em 2026, mais do que nunca, precisamos de vigilância inteligente, colaboração internacional e cuidados continuados com quem vive hoje com as sequelas do vírus. A natureza de nossa segurança é também a natureza da nossa convivência: entre estações, cidades e pessoas, a atenção é o ato de prevenção mais humano que temos.






















