Por Erica Santini, Espresso Italia — Ciao, viajante curioso. A passagem do ciclone mediterrâneo Harry pela costa tunisina não trouxe apenas chuva e vento: trouxe à superfície fragmentos do passado, como se o mar tivesse sussurrado segredos antigos na areia.
Entre a noite de 19 e 20 de janeiro, a força das águas — com ondas registradas em picos de até 12 metros — provocou forte erosão no litoral do cabo de Cap Bon. Em vários trechos entre Néapolis (Nabeul) e a faixa costeira rumo a Kélibia, o recuo súbito da praia deixou à mostra blocos de pedra, colunas e porções de muratura até então enterradas sob metros de areia.
As imagens que circulam nas redes sociais mostram superfícies irregulares e estruturas emergindo como relíquias recém-descobertas. A hipótese — ainda a ser confirmada por estudos científicos — é que algumas dessas ruínas estejam ligadas à antiga cidade punico-romana de Néapolis, conhecida também por áreas hoje parcialmente submersas no litoral tunisino.
Em resposta imediata, o Instituto Nacional do Patrimônio tunisino (Inp) mobilizou equipas para operações de emergência ao longo do litoral do governadorato de Nabeul. Técnicos e arqueólogos iniciaram levantamentos, fotografias e documentação científica dos restos expostos, com especial atenção às praias de Sidi Mahrsi, aos limites do sítio de Néapolis e às zonas próximas a Kerkouane.
É um momento delicado: a combinação de clima extremo e erosão costeira pode tanto revelar quanto danificar irreversivelmente vestígios arqueológicos. Por isso, as ações do Inp são urgentes, buscando registrar cada elemento antes que a próxima tempestade ou a maré alta oculte novamente esses fragmentos do tempo.
Como curadora de experiências, sinto um arrepio de admiração ante essa cena — a luz fria do mar, o estalo das ondas, o perfume salgado que parece limpar as camadas do passado. Andiamo: imaginar que sob nossos pés há ruas, pedras e histórias de milênios traz a sensação de navegar pelas tradições. Ainda assim, é imprescindível esperar o trabalho dos especialistas para que as hipóteses se transformem em conhecimento confirmado.
As autoridades locais alertam para que banhistas e curiosos se afastem das áreas afetadas, tanto por razões de segurança quanto para preservar o material arqueológico até o fim das análises. Enquanto isso, a comunidade científica prepara relatórios e possivelmente campanhas de escavação controlada, integrando preservação e pesquisa.
Se estas superfícies emergentes confirmarem ligações com a Néapolis punico-romana, estaremos diante de mais um capítulo fascinante da história do Cap Bon, onde o mar, por vezes feroz, também redistribui memórias. Dolce far niente? Talvez só depois que a ciência cuidar do que o mar nos devolveu.
Atualizaremos esta matéria à medida que o Inp divulgar achados e laudos oficiais. Por ora, permaneço aqui, com o café quente na mão e os olhos voltados para o horizonte — sempre à escuta das histórias que o Bel Paese mediterrâneo ainda guarda.






















