Por Aurora Bellini — À sombra de um horizonte que pede reparos urgentes, o WWF acende um farol de atenção: quase 40% das zonas úmidas da Itália apresentam estado de conservação considerado inadequado. O alerta chega às vésperas do Dia Mundial das Zonas Úmidas (2 de fevereiro) e coincide com os 50 anos da Convenção de Ramsar, o tratado que celebra e protege esses ecossistemas essenciais.
As zonas úmidas — entre lagoas, lagos, pântanos, turfeiras e cursos d’água — são verdadeiros viveiros de vida e serviços ambientais: armazenam carbono, regulam cheias, recarregam aquíferos e sustentam uma riqueza biológica que rivaliza com as florestas tropicais e as barreiras de corais. Mantê-las saudáveis é, portanto, semear resiliência para a crise climática e para a segurança alimentar.
Como farol histórico dessa preservação, o Lago di Burano, na Toscana, representa uma vitória e um lembrete. Foi lá que nasceu a primeira oasi do WWF, hoje reconhecida como sítio Ramsar e reserva natural estatal, com cerca de 410 hectares e mais de 600 hectares protegidos contra a caça. Nesse mosaico costeiro encontram-se mais de 500 espécies vegetais — de ginepri a lecci, passando por mirto e rosmarinho — e mais de 300 espécies de aves e mamíferos, entre elas a folaga, o moriglione, a moretta tabaccata, o falco di palude, além de raposas, tordos e até o lobo.
O diagnóstico do WWF aponta para causas claras: alterações hidrológicas, fragmentação dos habitats, crescente antropização do território e práticas de gestão hídrica que não respeitam os ciclos naturais. O efeito é um quadro de declínio alarmante nas espécies: 53% das espécies terrestres e de água doce protegidas pela Diretiva Habitats estão em condição desfavorável. Entre os grupos mais afetados, destacam-se anfíbios (38% em risco), peixes de água doce (48% ameaçados) e aves que nidificam em zonas úmidas — mais de 20% dessas espécies encontram-se sob ameaça.
O chamado agora é duplo: proteger o que resta e restaurar o degradado. Isso significa ampliar áreas protegidas, reconectar corredores hídricos, reconstituir regimes naturais de água e combater espécies exóticas invasoras que alteram a dinâmica dos ecossistemas aquáticos. São medidas técnicas, sim, mas também escolhas políticas e culturais: proteger zonas úmidas é escolher um legado de água limpa, natureza viva e segurança climática para as próximas gerações.
Como curadora de progresso e voz da Espresso Italia, eu vejo nesse desafio a oportunidade de iluminar novos caminhos — práticas que unam ciência, comunidades locais e políticas públicas para traduzir o conhecimento em ação concreta. Em tempos de sombras, as zonas úmidas são espelhos d’água que nos lembram da interdependência entre o humano e o natural. Cultivar sua recuperação é semear futuro.
À medida que celebramos a memória da Convenção de Ramsar, fica claro que a resposta precisa ser imediata, coordenada e baseada em evidências. A Itália, com seus sítios de valor inestimável, tem a responsabilidade e também a chance de liderar um renascimento cultural e ambiental — um processo de restauração que, como a luz que atravessa a água, revela novos caminhos de convivência sustentável.





















