Por Marco Severini — Em mais um movimento que redesenha, com violência, o tabuleiro da região, as forças de segurança de Israel realizaram ataques na Faixa de Gaza reivindicando terem mirado alvos terroristas, enquanto relatos hospitalares apontam dezenas de vítimas civis. Ao mesmo tempo, o posto fronteiriço de Rafah foi anunciado como reaberto a partir de segunda‑feira, porém exclusivamente para circulação de pedestres — um sinal claro dos alicerces frágeis da diplomacia humanitária.
Em nota publicada nas redes oficiais, o Exército de Defesa de Israel (IDF) e a agência de segurança interna (ISA) afirmaram ter atacado quatro comandantes e outros elementos ligados a Hamas e à Jihad Islâmica distribuídos pela faixa de Gaza. A comunicação oficial acrescentou que foram atingidos um depósito de armas, um sítio de produção e dois locais de lançamento na zona central da Faixa.
As forças israelenses justificaram as ações como resposta a uma suposta violação do cessar‑fogo: segundo o texto, oito combatentes teriam sido identificados saindo de uma infraestrutura subterrânea no setor oriental de Rafah. O IDF reiterou que continuará a agir contra tentativas de ataques às suas tropas e à população israelense.
Do lado palestino, hospitais e meios de comunicação, incluindo fontes citadas pela Al Jazeera, reportaram que ao menos 28 palestinos — entre eles seis crianças — foram mortos em ataques durante a madrugada, em áreas como a cidade de Gaza e Khan Younis. Relatos locais também indicam que um ataque com drones contra a estação de polícia no bairro de Sheikh Radwan, no norte de Gaza, deixou sete mortos, entre agentes e detentos. Números variados e a dispersão das operações tornam difícil, no imediatismo, um balanço único e definitivo.
O ciclo de ação e reação expõe, mais uma vez, o uso simultâneo da narrativa e da força física como instrumentos estratégicos. Em termos jurídicos, as autoridades israelenses acusam os grupos armados de «explorar» a infraestrutura civil e a população como escudo humano, postura que eles afirmam violar o direito internacional; por sua vez, a comunidade humanitária denuncia o impacto desproporcional sobre civis.
No campo da geopolítica mais ampla, Washington anunciou aprovações relevantes de material militar ao governo de Israel. Segundo comunicado do Pentágono, o Departamento de Estado autorizou a venda de 730 sistemas e equipamentos relacionados aos misséis Patriot, com custo estimado em torno de 9 bilhões de dólares. Em paralelo, foi aprovada a venda de armamentos no valor aproximado de 6 bilhões de dólares, incluindo 30 helicópteros Apache (estimados em 3,8 bilhões) e veículos leves interforças (cerca de 1,98 bilhão).
Este duplo movimento — ofensiva no terreno e reforço logístico‑militar externo — configura um remapeamento da tectônica de poder regional. O apoio material de aliados consolida capacidades defensivas e dissuasoras, mas ao mesmo tempo amplia as linhas de tensão e complica esforços humanitários e diplomáticos.
Ao anunciar a reabertura parcial do valico de Rafah apenas para pedestres, as autoridades deixam clara a prioridade pela circulação humana mínima sem, contudo, normalizar a passagem de bens ou assistência em escala. É um passo cauteloso, quase arquitetônico: abre‑se uma fresta num muro que segue, contudo, fortemente vigiado.
Na calma tensa de um processo que se move em tabuleiros invisíveis, a notícia de hoje confirma que as jogadas não são apenas militares, mas também políticas e logísticas. A estabilização exigirá, além de cessar‑fogo verificável, canais humanitários eficazes e compromissos duradouros entre atores regionais e internacionais — peças que, até aqui, continuam escassas.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional na La Via Italia.






















