Por Marco Severini – Espresso Italia
Estreou esta sexta-feira nas salas norte-americanas o documentário Melania, produção da Amazon MGM que acompanha a figura discretíssima da primeira-dama dos Estados Unidos enquanto ela se prepara para a segunda inauguração do marido, Donald Trump. A distribuição em grande escala segue a première festiva realizada no recém-renomeado Trump-Kennedy Center, onde o ex-presidente qualificou a obra como “glamour, muito glamour”.
Com duração de uma hora e 44 minutos, o filme acompanha os vinte dias que antecedem o início do mandato presidencial em 20 de janeiro de 2025. Do refúgio da família em Florida, passando pela Trump Tower em Nova York até corredores da Casa Branca, a narrativa é prosaica: uma sucessão de compromissos, provas de roupas para o dia da cerimônia e decisões sobre a decoração do retorno a Washington. O acesso raro à rotina pessoal da protagonista procura compor uma imagem intimista, sem promessas de revelações sensacionais.
No material, Melania fala do impacto profundo da morte da mãe e confessa que seu cantor favorito é Michael Jackson. Há ainda momentos de sociabilidade internacional, como uma videochamada com a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, que surge como participação-surpresa.
O documentário chegará ao streaming em seguida, via Prime Video, conforme o acordo de licenciamento que movimentou os bastidores comerciais: um contrato estimado em 40 milhões de dólares, pelo qual a própria Melania, creditada como produtora executiva, receberia cerca de 70% do valor. Fontes indicam que a oferta seguinte mais elevada, vinda da Disney, teria sido de 14 milhões.
Além do relato pessoal, o filme oferece um vislumbre da tectônica de poder que cercou o último ano da administração Trump: magnatas do setor privado mobilizados para homenagear a nova tomada de posse. Entre eles, o agora próximo a Trump Jeff Bezos, que teria assegurado assento de destaque na inauguração e cuja propriedade do Washington Post é apontada como um instrumento de influência editorial pró-negócios.
As reações críticas nos Estados Unidos foram majoritariamente frias. Publicações influentes qualificaram a obra de forma ríspida — The Atlantic chegou a rotulá-la uma “vergonha”, enquanto a revista Variety a descreveu como um “infomercial descarado”. A expectativa por vendas robustas nas bilheterias foi moderada, e em mercados sensíveis o lançamento encontrou barreiras: na África do Sul, grandes redes de cinemas optaram por retirar o título antes da estreia, citando o “clima atual” e relações diplomáticas tensas motivadas por acusações infundadas do ex-presidente.
O nome do realizador, Brett Ratner, também suscitou controvérsia. Ratner é lembrado por denúncias de conduta imprópria que abalaram sua reputação na indústria do entretenimento, fato que acrescenta contornos políticos e éticos ao lançamento.
Do ponto de vista estratégico, Melania funciona menos como investigação e mais como peça de cena cuidadosamente montada: um movimento calculado no tabuleiro para moldar percepções, aproximar círculos de poder e consolidar um eixo de influência econômico-midiática. O filme não derruba paredes; redesenha, sutis e deliberadamente, as fronteiras visíveis e invisíveis da imagem pública de uma família que voltou a ocupar o centro da geopolítica americana.
Em última análise, a obra coloca em evidência os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea, onde a linguagem do espetáculo e as tratativas econômicas se entrelaçam. Para o observador atento, resta acompanhar as próximas jogadas: promoção em plataformas de streaming, respostas da crítica e o efeito de longo prazo sobre a narrativa que o próprio establishment procura consolidar.






















