Começa a contagem regressiva para a implementação da diretiva europeia sobre as Casas Green: a Itália tem até maio de 2026 para receber a norma. Esse marco é parte de um movimento mais amplo de descarbonização do parque imobiliário dos 27 Estados-membros, com metas que buscam reduzir emissões e consumos energéticos até 2030 e alcançar a neutralidade climática até 2050.
Especialistas da Sociedade Italiana de Medicina Ambiental (Sima) e da Velux Italia lembram que a transição terá um peso econômico considerável: cerca de 85 bilhões de euros em investimentos em eficiência energética só até 2030, e um impacto direto, indireto e de cadeia estimado em até 280 bilhões de euros. É uma colheita de hábitos e obras que transforma não só fachadas e sistemas, mas também o nosso modo de habitar.
A Comissão Europeia destaca que a diretiva das Casas Green é também uma ferramenta para reduzir os custos energéticos das famílias e empresas e para reforçar a independência e a resiliência energética: actualmente, cerca de 52% do consumo de gás natural da UE está direta ou indiretamente ligado aos edifícios. A urgência geopolítica — acentuada pela queda das importações de energia da Rússia desde 2022 — acrescenta urgência à reforma.
Além do balanço econômico e estratégico, há uma dimensão humana e ambiental que me interessa especialmente. A evidência científica mostra que a qualidade dos ambientes internos traz benefícios concretos e mensuráveis. O acesso adequado à luz natural está associado a melhorias de desempenho: até cerca de 15% no trabalho de escritório e entre 7% e 18% em contextos educativos. Em hospitais, aumentos de 100 lux de luz natural podem reduzir em média 7,3 horas o tempo de permanência dos pacientes.
No front energético, o uso eficaz da luz natural pode cortar de 20% a 60% o consumo elétrico para iluminação em edifícios de escritórios e entre 16% e 20% no setor residencial. Considerando que a iluminação representa ainda uma fatia importante do consumo elétrico nacional — cerca de um terço no terciário e cerca de um sétimo no residencial —, projetar edifícios que respirem luz é também economia e bem-estar.
As estratégias passivas de adaptação climática ganham papel central: revestimentos, isolamento, orientações e, sobretudo, as coberturas e sombreamentos solares externos ajudam a reduzir o superaquecimento de verão, estabilizam as temperaturas internas, contêm picos de demanda elétrica e elevam o conforto térmico e visual. Essas soluções diminuem a exposição ao estresse térmico — uma ameaça crescente à saúde, especialmente para idosos, crianças e pessoas vulneráveis.
Como observador atento do quotidiano, penso que a diretiva pede algo além da técnica: pede um cuidado com os nossos ritmos internos, com a respiração da cidade e com a qualidade dos espaços onde vivemos. O desafio técnico e financeiro existe, mas há também uma oportunidade para replantar práticas que conectam arquitetura, saúde e economia.
Ao recepcionar a Energy Performance of Buildings Directive (EPBD), os governos terão de equilibrar metas ambiciosas e medidas práticas, garantindo que a reforma estrutural dos edifícios se traduz em ganhos reais para a saúde, para o bolso das famílias e para a resiliência climática. Em suma: transformar casas sem alma em lares que acolhem, aquecem e protegem, respeitando o tempo interno do corpo e as estações que marcam a nossa vida.






















