Por Chiara Lombardi — A trajetória do The Kooks se lê como um roteiro de identidade coletiva: surgidos em Brighton, tornaram-se a trilha sonora de momentos íntimos e públicos, e hoje, duas décadas depois, seguem reescrevendo seu papel no indie rock contemporâneo. Com público que atravessou gerações — da primeira onda de fãs aos recém-chegados da geração Z — a banda celebra 20 anos de carreira sem perder a capacidade de se surpreender e de emocionar.
É impossível falar da história deles sem lembrar o impacto de “Naïve”, lançado em 2006 como quarto single de Inside In/Inside Out, que acabou virando um hino geracional. Hoje, essa canção vive em playlists intergeracionais e ressoa como um espelho do nosso tempo: uma faixa que captura memórias, ritos de passagem e a nostalgia coletiva.
Em conversa com a AdnKronos, o vocalista Luke Pritchard traça um mapa do presente artístico do grupo. O sétimo álbum de estúdio, Never/Know, lançado em maio de 2025, foi descrito por ele como “uma espécie de fechamento de ciclo e, ao mesmo tempo, um recomeço”. A opção foi deliberada: voltar às raízes, priorizar a simplicidade e colocar as canções no centro do palco sonoro.
“Quis limitar os arranjos a, no máximo, quatro elementos por vez”, conta Luke. “Fizemos tudo internamente, sem tanta pressão externa. O resultado foi um disco alegre, apesar do contexto difícil que muitos viviam ao nosso redor. Encontramos felicidade na música e na conexão entre nós. Viramos pais, nossas vidas ficaram mais estáveis, e isso transparece no disco: ainda há rock’n’roll e arestas, mas também calma e segurança.”
Para marcar as duas décadas, o grupo prepara um novo projeto discográfico que, segundo o cantor, estará em continuidade com Never/Know, mas com novas ambições estéticas. “Será um álbum muito de banda, com um produtor ‘old school’. Nos últimos anos, o produtor às vezes parecia mais importante que o artista; agora sinto que as bandas estão voltando ao centro. Será talvez mais experimental, com pinceladas psicodélicas, e liricamente mais sombrio — menos centrado na alegria da família, com uma sombra maior.”
Essa decisão de caminhar entre continuidade e risco é, na minha leitura, o que torna a jornada do The Kooks fascinante. Eles não estão apenas preservando um legado: estão reescrevendo-o, como se revisassem um roteiro antigo para encontrar novas nuances. É o tipo de movimento que revela um grupo consciente do próprio lugar no cenário cultural — não apenas como fábrica de hits, mas como intérprete do nosso presente.
No plano prático, a banda também anunciou uma passagem pela Itália: passagem confirmada por Milão em 28 de fevereiro, numa data que promete reunir fãs de diferentes gerações. Além do palco, Luke falou sobre a mudança no processo de composição: se no início bastava uma letra simples e uma guitarra para que a música nascesse, hoje ele grava muito mais, acumulando rascunhos que depois vão ganhando forma.
O contraste entre o instante espontâneo da criação e o estúdio metódico espelha outra tensão presente na obra contemporânea: o equilíbrio entre autenticidade e elaboração. O The Kooks parece confortável navegando esse limiar, mantendo a urgência do indie enquanto explora texturas mais escuras e experimentais.
Em suma, aos 20 anos, os The Kooks reafirmam que continuar é também transformar. O novo álbum prometido e a turnê europeia funcionam como capítulos de um livro que ainda tem muito a dizer — não apenas sobre sons e acordes, mas sobre os ecos culturais que as canções carregam. Para quem os acompanha desde Brighton ou para quem os descobriu nas redes, a sensação é a mesma: um reencontro com uma banda que segue escrevendo para se emocionar — e para nos fazer sentir que a música, afinal, é um reframe da memória coletiva.






















