Em breve ficará disponível na Itália o primeiro fármaco biológico direcionado para a Bpco — a broncopneumopatia crônica obstrutiva, conhecida em português como BPCO. Trata‑se do anticorpo monoclonal dupilumab, cuja aprovação pela EMA em julho de 2024 trouxe uma nova perspectiva depois de décadas dominadas por terapias inalatórias. Segundo os laboratórios envolvidos, dupilumab será também reembolsado em breve no país, abrindo portas para pacientes e cuidadores que há muito viviam sob o peso de limitações respiratórias contínuas.
A Bpco é uma das grandes sombras do cenário de saúde global: terceira causa de morte no mundo, com cerca de 3,5 milhões de óbitos em 2021 — aproximadamente 5% de todas as mortes naquele ano. Apesar desses números, a doença segue amplamente subestimada e subdiagnosticada. A aparência discreta do seu curso inicial, o predomínio em idades acima dos 40 anos e a forte associação ao tabagismo contribuem para um diagnóstico tardio. A prevalência sobe de forma marcada nas idades mais avançadas, ultrapassando 25% entre os maiores de 80 anos.
Os temas estiveram no centro do evento “La Bpco ha un nuovo respiro”, realizado em Milão por Sanofi e Regeneron. O encontro teve como objetivo evidenciar o impacto da doença na rotina de pacientes e cuidadores, discutir estratégias de manejo atuais, identificar necessidades ainda não atendidas e apresentar dupilumab como uma nova opção terapêutica capaz de alterar o curso da doença para alguns perfis de doentes.
Os especialistas lembram que a real batalha ocorre quando a doença não está controlada. Mesmo com a terapia inaladora mais intensiva disponível hoje, cerca de 50% das pessoas com Bpco continuam a ter exacerbações — episódios de agravamento que intensificam sintomas, podem exigir hospitalização e aceleram a progressão da doença, chegando, nos casos mais graves, a consequências fatais.
“A rotina de quem convive com a Bpco, especialmente nas formas mais graves, é muitas vezes dominada pela ‘fome de ar’ e pelo medo constante das exacerbações”, descreve Simona Barbaglia, presidente da Respiriamo insieme Aps e cuidadora de pessoa com Bpco. “Atos simples, como subir um lance de escadas ou sair de casa, transformam‑se em desafios impossíveis. A doença ergue barreiras invisíveis — e quem cuida também arca com sacrifícios enormes em tempo, trabalho e vida pessoal. Ter acesso a uma terapia que reduz episódios agudos significa devolver dignidade e horizontes a famílias inteiras.”
Em linguagem sensível, podemos imaginar a trajetória do doente como uma paisagem onde o ar ficou raso: cada novo tratamento que surge é como uma chuva esperada, que pode reanimar folhas murchas e abrir caminhos. Dupilumab, ao atuar sobre mecanismos imunológicos específicos, representa essa possibilidade para um subconjunto de pacientes com inflamação característica que não respondem plenamente às opções tradicionais.
Para clínicos e gestores de saúde, a introdução de um biológico direcionado reembolsado traz desafios e oportunidades: identificar corretamente os pacientes que mais se beneficiarão, organizar rotas de acesso e garantir que o acompanhamento acompanhe o potencial terapêutico. Para quem vive com Bpco e seus cuidadores, a novidade alimenta a esperança de dias em que a respiração volte a ser um ritmo menos interrompido — como a respiração calma de uma cidade ao amanhecer, quando o ar parece prometer pequenos recomeços.
Enquanto as autoridades de saúde definem os detalhes do reembolso na Itália, permanece a certeza de que a paisagem do tratamento da Bpco está mudando. Não é apenas um novo remédio: é a perspectiva de reduzir exacerbations, diminuir internações e devolver qualidade de vida a quem há muito espera por um fôlego diferente.





















