Irã manifesta disposição a negociar com os EUA, mas simultaneamente reafirma capacidade de resposta militar. Em declaração feita em Ancara, o chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que Teerã está pronto para sentar-se à mesa do diálogo, desde que haja mudança de postura por parte dos americanos e abandono das ameaças.
Em visita à Turquia, onde encontrou-se com o ministro das Relações Exteriores Hakan Fidan, Araghchi traçou um cenário de dois vetores possíveis: o da negociação e o da conflagração. “Estamos prontos a sentar e iniciar um negócio de paz, mas os EUA precisam agir de boa-fé e deixar as ameaças de lado”, disse o ministro em Ancara. “Seja qual for o desfecho, estamos preparados — tanto para a guerra quanto para um acordo. O Irã não aceita diktats; estamos dispostos ao diálogo, mas não a começar com intimidações.”
No mesmo ensejo, Araghchi criticou duramente a recente decisão da UE de incluir os Guardiões da Revolução (Pasdaran/ IRGC) na lista de organizações terroristas. Para ele, tratar-se-ia de “um grave erro estratégico” que evidencia um alinhamento automático de Bruxelas aos interesses de Washington, com perda de autonomia no palco internacional. “O Irã nunca abandonou a diplomacia; a União Europeia, sim”, acrescentou o chanceler.
Na resposta iraniana às iniciativas europeias, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, anunciou que Teerã pretende classificar como “terroristas” as forças armadas dos países europeus que optaram por colocar o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica na blacklist. Em mensagem na plataforma X, Larijani advertiu: “Os exércitos dos países que endossaram a recente resolução da UE contra o IRGC serão considerados terroristas. As consequências recairão sobre os Estados que adotaram tais medidas.”
Do ponto de vista geopolítico, temos aqui um movimento de dupla natureza — um gesto diplomático anunciado ao mesmo tempo que se fortificam as capacidades de dissuasão. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro, onde cada peça é calibrada para maximizar efeitos políticos e estratégicos sem necessariamente precipitar o confronto aberto.
O incidente ilustra a fragilidade dos alicerces da diplomacia contemporânea e um redesenho de fronteiras invisíveis entre influência e subordinação: a decisão da UE é interpretada por Teerã como um deslocamento tectônico em direção à órbita de Washington, o que, por sua vez, provoca contra-movimentos jurídicos e simbólicos de grande impacto.
É preciso ler essas declarações com serenidade e rigor: a oferta de negociação existe, mas condicionada a um gesto de mudança de comportamento dos EUA. Ao mesmo tempo, as retóricas punitivas — e a retórica de reciprocidade anunciada por Larijani — mantêm aceso o potencial de escalada. Em suma, o Irã joga sua peça no centro do tabuleiro, exigindo respeito e reconhecimento, enquanto preserva a capacidade de resistência caso seu adversário opte por uma estratégia coercitiva.
Como analista, compreendo este episódio como uma peça de Estado escrita em duas linguagens: a da diplomacia e a da demonstração de força. A estabilidade regional dependerá da capacidade dos atores de transformar declarações firmes em canais de negociação verificados, evitando que a tectônica de poder se traduza em ruptura.






















