Por Marco Severini — Da redação Espresso Italia. O presidente americano Donald Trump afirmou, falando do Estúdio Oval, que “estamos próximos de alcançar um acordo entre a Rússia e a Ucrânia“. Em tom contido, o chefe da Casa Branca indicou que existe “uma possibilidade de sucesso para os colóquios entre Rússia e Ucrânia“, mesmo com a ausência de figuras descritas como Whitkoff e Kushner nas negociações.
Na mesma intervenção, Trump evocou um episódio ligado ao Irã: ‘Estavam prestes a enforcar 837 pessoas, e eu disse a eles que se fizessem isso, pagariam um preço como ninguém jamais pagou antes. E eles recuaram; eu apreciei. Mas muitas pessoas estão sendo mortas, então veremos o que acontecerá. Posso dizer isto: eles realmente querem chegar a um acordo’. A declaração mistura pressões de grande alcance — econômico e simbólico — com a retórica de dissuasão que tem sido marca das negociações de segurança.
Do lado russo, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmou que o presidente americano contatou pessoalmente o presidente Vladimir Putin, pedindo que a Rússia se abstivesse de realizar ataques sobre Kiev por uma semana, até domingo, 1º de fevereiro. Peskov deixou a entender que Moscou teria concordado com a pausa.
Entretanto, veículos independentes, como o Kyiv Independent, alertam para incertezas relevantes: ‘há confusão tanto sobre os prazos quanto sobre o alcance da proposta’ de tregua. A dimensão, mecanismos de verificação e garantias reciprocas permanecem obscuros — fatores que podem transformar um movimento tático num terreno fértil para equívocos.
No campo dos factos, a última grande ofensiva russa contra a capital ucraniana data da noite de 24 de janeiro, quando ataques com mísseis e drones atingiram infraestruturas, deixando cortes de energia em cerca de 80% de Kiev. Ataques esporádicos continuaram: na madrugada de 27 de janeiro, a Rússia lançou raids significativos contra infraestruturas energéticas e edifícios residenciais em Odessa, provocando ao menos três mortos e dezenas de feridos.
Curiosamente, na primeira noite após a divulgação pública da suposta tregua por Trump, a Rússia lançou 111 drones de diferentes tipos e um míssil balístico, embora não houvesse relatos imediatos de danos às instalações energéticas. A sequência de eventos sugere uma realidade tática fluida: avisos diplomáticos, comunicações bilaterais e operações militares simultâneas, em diferentes escalas.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento que tem a aparência de um lance decisivo no tabuleiro. A proposta de suspensão de ataques sobre Kiev funcionaria como um alívio humanitário e político imediato, mas sua eficácia dependerá de mecanismos de monitoramento, de concessões mútuas e de como as potências externas — notadamente os EUA — alinharão incentivos e penalidades. Em termos geopolíticos, a iniciativa redesenha, ainda que provisoriamente, linhas de influência e ofusca as fronteiras invisíveis entre dissuasão, diplomacia e demonstração de força.
Como analista, observo que, sem clarificação pública sobre prazos, verificação e participantes das negociações, qualquer anúncio de ‘acordo’ deve ser interpretado com cautela. Movimentos táticos podem se transformar em fundações frágeis da diplomacia se não forem assentados em garantias multilaterais robustas. A tectônica de poder na região permanece volátil; o resultado final dependerá tanto de negociações discretas quanto da resistência institucional a retrocessos.
Em suma: há sinais de avanço diplomático, mas também uma paisagem operacional onde os riscos de mal-entendidos e recrudescimentos persistem. Mantemos a atenção no desenrolar das comunicações entre Washington e Moscou, e nos indicadores de verificação em solo ucraniano.






















