Morreu aos 71 anos a atriz Catherine O’Hara, vencedora de um Emmy e figura central da comédia cinematográfica e televisiva das últimas décadas. Segundo comunicado da sua agência, a Creative Artists Agency, a atriz — natural de Toronto e com cidadania norte-americana — faleceu em sua casa em Los Angeles “após uma breve doença”. Não foram divulgados outros detalhes.
É impossível separar a trajetória de Catherine O’Hara do espelho cultural que ela ajudou a construir: das esquetes ácidas do repertório inicial às personagens que se tornaram ícones da memória popular. Ela deu os primeiros passos diante das câmeras no célebre programa de comédia canadense Second City Television (SCTV), entre 1976 e 1984, um laboratório de talentos que também revelou nomes como John Candy, Eugene Levy e Rick Moranis.
O salto para Hollywood veio com papéis que cruzavam o grotesco e o cômico. Em 1988, participou do universo barroco de Tim Burton em Beetlejuice, e em 1990 conquistou o público internacional ao interpretar a mãe angustiada do pequeno Kevin no clássico natalino Esqueceram de Mim (Home Alone), contracenando com Macaulay Culkin. Décadas depois, retornaria ao papel de Delia Deetz no novo capítulo Beetlejuice Beetlejuice, reafirmando a longevidade de uma carreira construída na capacidade de transformar traço em arquétipo.
O renascimento artístico de O’Hara na última década tem um nome: Schitt’s Creek. Na série criada por Daniel Levy, seu papel como Moira Rose — uma atriz de novelas outrora famosa, tão excêntrica quanto frágil — foi celebrado pela crítica e premiado com um Emmy, marcando um dos maiores reentrées da televisão contemporânea. A performance explorou, com humor e precisão, a dicotomia entre imagem pública e identidade privada; um pequeno tratado sobre a performatividade em tempos de redes sociais.
Nos anos mais recentes, O’Hara também participou da segunda temporada da aclamada série da HBO The Last of Us e integrou o elenco de The Studio, produção da Point Grey Pictures para a Apple TV que dominou prêmios entre as comédias em 2025. Sua versatilidade transitaria do absurdo ao melancólico com a mesma naturalidade — como se cada papel fosse um pequeno reframe do roteiro oculto da sociedade.
A comoção entre colegas e fãs foi imediata. Macaulay Culkin, lembrado como o menino que ficou sozinho em casa, publicou no Instagram uma mensagem tocante: “Mãe. Pensava que teríamos mais tempo. Queria mais. Ainda havia tanto a dizer. Te amo. Nos veremos novamente.” Palavras que ressoam não apenas como homenagem pessoal, mas como fechamento simbólico de uma cena que marcou gerações.
Ao longo de sua carreira, Catherine O’Hara construiu uma filmografia que funciona como um espelho do nosso tempo — ora cômica, ora dolorosa — e que traduz a relação entre espetáculo e memória coletiva. Sua passagem deixa um legado de personagens que são, acima de tudo, estudos sobre a humanidade em clave de humor: figuras que riem quando talvez devêssemos chorar, e que nos forçam a reconhecer o que há de vivo na comédia.
Em homenagem à atriz, fica o convite à reflexão: por que certos rostos do entretenimento permanecem como reflexos de nós mesmos? A resposta talvez esteja na capacidade de transformar o mundano em mito — e Catherine O’Hara fazia isso com a leveza de quem conhece o roteiro oculto da alma humana.






















