Marco Severini — A política externa contemporânea italiana e europeia exige uma leitura além das manchetes: trata-se de um reajuste silencioso do tabuleiro de poder global. Recupero aqui, como ponto de partida, um princípio caro ao realismo estrutural de Kenneth Waltz: o objetivo primordial de todo Estado não é a expansão altruísta, mas evitar ser dominado. Quando tal regra mínima de sobrevivência é ignorada, abre-se espaço para a perda gradual de autonomia e para o deslocamento dos alicerces da diplomacia.
No caso italiano, a situação reveste-se de uma ironia trágica. A Itália não é hoje uma grande potência — e dificilmente retomará esse status pleno. É uma economia avançada, porém carente de recursos estratégicos e com margem de manobra limitada. Por isso, sob a lógica realista, deveria primar pela cautela. Observamos, todavia, o inverso: ativos estratégicos cedidos, setores sensíveis das telecomunicações submetidos a influências externas, a cibersegurança parcialmente delegada a parceiros estrangeiros e infraestruturas vulneráveis a pressões externas. Não se trata de mera cooperação: arrisco dizer que é uma renúncia à soberania.
A falha mais grave é, em minha avaliação, geográfica e estratégica. A Itália não está no Atlântico nem no Pacífico; está no Mediterrâneo, espaço onde se cruzam interesses europeus, africanos e do Próximo Oriente. Agir como se fôssemos uma extremidade do eixo transatlântico equivale a negligenciar o nosso próprio centro de gravidade. Desde o colapso da ordem na Líbia, Roma enfrentou sucessivas humilhações diplomáticas: esses episódios revelam a incapacidade de proteger interesses mínimos no seu entorno imediato — o que, no léxico da geopolítica, é um risco existencial.
Ao nível da União Europeia, há um curioso fenômeno que denomino realismo mágico geopolítico: a China é proclamada rival sistémico enquanto suas empresas erguem infraestruturas cruciais no continente. Os Estados Unidos são tratados como aliados intocáveis mesmo quando exercem persistentes pressões — de natureza estratégica ou comercial — sobre territórios europeus. Essa assimetria interiorizada corrói a coerência estratégica da UE e cria duplos padrões que não resistem a um exame frio de interesse nacional.
O discurso da segurança virou, por vezes, uma clava política. Projetos legítimos são questionados não por razões técnicas, mas por vetos externos. O caso da Huawei exemplifica como contratos lícitos podem ser transformados em campo de batalha político, minando a previsibilidade jurídica e o Estado de Direito. Assim, medidas que deveriam reforçar independência acabam por parecer instrumentos de subserviência.
Também a política de «de-risking» corre o risco de se converter em de-development. Excluir fornecedores-chave, como os chineses no setor solar — onde mais de 90% dos painéis são produzidos em território chinês — implica custos e atrasos na transição verde e na digitalização. Ao invés de aumentar a autonomia europeia, tais rupturas podem fortalecer a hegemonia tecnológica de terceiros, em especial a americana.
Em suma, estamos perante um movimento que prefiro qualificar como vassalagem sem reciprocidade: abandono progressivo de capacidades nacionais, sem contrapartida estratégica clara. A alternativa exige realismo: mapear interesses, reencontrar a centralidade mediterrânea, diversificar cadeias e recompor alianças segundo critérios de soberania e eficácia. É um movimento de precisão um lance de xadrez entre grandes peças que pede calma, cálculo e visão de longo prazo. Só assim a Itália e a Europa poderão recuperar alicerces sólidos numa arquitetura global cada vez mais multipolar.






















