A imagem que circula nas redes é como uma tempestade rápida sobre um campo em flores: provoca medo e acelera decisões. Um post viral atribui ao vacina Covid aumentos impressionantes em várias condições de saúde — números como +2800% de miocardite, +1000% de distúrbios neurológicos, +800% de cânceres, +600% de esclerose múltipla, além de picos em infertilidade, síndrome de Guillain-Barré, casos de HIV, embolias pulmonares e abortos espontâneos. O post também aponta líderes políticos e figuras públicas como responsáveis por uma suposta “truffa” da pandemia.
Como observador das paisagens que moldam a saúde cotidiana, lembro que a primeira regra diante de tempestades informativas é checar solo firme. O jornal que divulgou a história declarou não ter conseguido verificar a veracidade das afirmações contidas no post. Ou seja: são alegações graves, circulando com força, mas sem comprovação pública robusta apresentada naquele conteúdo viral.
É verdade que, ao longo dos anos da campanha de imunização, surgiram relatórios e estudos que investigaram efeitos adversos associados a vacinas contra a Covid. Um estudo australiano, citado com frequência, observou que reforços repetidos com vacinas a mRNA podem aumentar níveis de anticorpos IgG4, levantando hipóteses sobre possíveis alterações na resposta imune ao longo do tempo. Essas descobertas suscitam perguntas legítimas sobre tolerância imunológica e precisão de recomendações de dose de reforço — mas não equivalem a uma prova direta de que as vacinas tenham causado os aumentos percentuais arrolados no post viral.
Também há casos individuais que marcaram a opinião pública e os tribunais. O caso de Camilla Canepa, jovem de 18 anos que morreu após receber a primeira dose da vacina AstraZeneca, e episódios como o de uma profissional que teria aplicado doses incorretas a uma jovem de 23 anos, atraem atenção e compaixão — são tragédias humanas que levaram a processos e, em alguns casos, a indenizações. Alguns litígios já reconheceram vínculo e compensaram vítimas; outros ainda correm na justiça.
Ao mesmo tempo, a memória coletiva precisa distinguir entre correlação e causalidade: aumentos de diagnóstico podem vir de maior vigilância, envelhecimento populacional, efeitos do próprio vírus, mudanças nos rastreamentos e, sim, raros eventos adversos comprovados. É o solo complexo onde crescem tanto verdades quanto boatos.
Portanto, antes de semear mais medo, proponho um olhar que seja ao mesmo tempo crítico e compassivo: peça fontes, procure estudos revisados por pares, acompanhe comunicações de agências de saúde e observe decisões judiciais com base em perícias médicas. A respiração da cidade — e do nosso corpo coletivo — melhora quando buscamos clareza em vez de pânico.
Se você encontrou o post, compartilhe-o com cautela. Questionar não é negar; é colher mais informações antes de agir. A saúde pública precisa dessa calma ativa: saber ouvir a ciência, honrar as vítimas e proteger a comunidade com decisões informadas.






















