Por Marco Severini — Em um movimento que combina simbolismo e pragmatismo, Papa Leone deixará a rotina estabelecida em Casa Santa Marta para instalar-se definitivamente no Palazzo Apostolico. A informação, antecipada pelo quotidiano Repubblica e confirmada pelo Escritório de Imprensa da Santa Sé, aponta para uma mudança que é ao mesmo tempo retorno e redefinição dos espaços do poder vaticano.
Ao romper parcialmente com a tradição — não retomando o apartamento pontifício “nobre” no piso principal, mas optando por um sottotetto, a clássica mansarda situada entre a terceira loggia e o telhado — Papa Leone sinaliza uma preferência por discrição: a nova morada, descrita como de caráter muito sóbrio, terá função estritamente residencial e íntima, enquanto o piso nobre do Palazzo Apostolico ficará reservado para recepções e compromissos públicos.
Os trabalhos de restauro no edifício estão em fase final e o traslado do pontífice para os chamados “soffittoni” — locais que historicamente acolhiam os secretários papais — ocorrerá em breve. Junto a ele seguirão seus dois secretários, don Edgar Rimaycuna e don Marco Billeri, mantendo a prática cotidiana de proximidade e eficiência administrativa que caracteriza a Secretaria Particular.
Um detalhe revelador desta escolha é a presença de uma palestra na mansarda. Sabemos que Papa Leone, nos seus dias de descanso em Castel Gandolfo, privilegia atividades como tênis e piscina, abraçando a máxima latina mens sana in corpore sano. A inclusão de um espaço para exercício no próprio Palazzo Apostolico convida à leitura de um pontificado que valoriza a disciplina corporal como componente da rotina institucional e espiritual.
O Escritório de Imprensa vaticano informou também que o estúdio já restaurado, a partir do qual o Papa costuma atender e rezar para os fiéis na Piazza San Pietro, permanecerá em uso para a parte do dia em que o pontífice recebe visitantes e realiza atos públicos. Assim, há uma clara demarcação funcional entre o espaço privado — a mansarda — e o piano nobile destinado ao exercício público do ministério petrino.
Enquanto analista que observa os movimentos do tabuleiro internacional, vejo nesta decisão um duplo significado: por um lado, o retorno à localização simbólica do Palazzo Apostolico reconecta o pontificado com a centralidade histórica da Sé; por outro, ao escolher a cobertura em vez do apartamento tradicional, Papa Leone preserva uma imagem de contenção e distância estratégica, reduzindo o efeito vertical de uma residência palaciana plenamente visível ao público.
Arquitetonicamente, a opção por uma mansarda remete à Itália dos telhados e loggias, espaços que sempre serviram como zonas de transição entre o interior institucional e o ar livre da cidade. É como deslocar uma peça no tabuleiro sem provocar choque: o núcleo do poder permanece no mesmo quadrante, mas seus alicerces privados são reposicionados para garantir maior discrição e funcionalidade.
Resta acompanhar como se dará esta convivência entre tradição e modernidade no cotidiano vaticano: o uso continuado do estúdio com vista para a Praça sugere que o pontificado manterá sua visibilidade ritual, ao passo que a mansarda indica uma preferência por espaços reservados para reflexão e trabalho íntimo. Em termos de tectônica de poder, trata-se de um redesenho discreto, porém significativo, das fronteiras internas do palácio.
Em síntese, a transferência de Papa Leone para a mansarda do Palazzo Apostolico é um movimento calculado, que conjuga sobriedade, eficiência e simbologia — um lance cuidadoso no grande xadrez da diplomacia e da representação eclesiástica.





















