Por Marco Severini — Em um tabuleiro geopolítico em que as peças convencionais estão desiguais, Teerã aperfeiçoou ao longo de décadas uma estratégia de dissuasão assíncrona. Consciente de que não pode rivalizar com a superioridade militar direta dos Estados Unidos, o regime iraniano cultivou um leque de respostas destinadas a impor custos elevados e a desestabilizar, quando necessário, não apenas o Médio Oriente, mas também pontos sensíveis da economia global.
O recente aumento de tensões — alimentado por ameaças de Washington e pela chegada de uma verdadeira “armada” americana à região — colocou essas opções novamente no centro do cenário. Mesmo após perdas operacionais sofridas em ataques israelenses e norte-americanos no verão passado e a emergência de pressões internas, o Irã conserva um repertório variado de medidas de retaliação.
Especialistas citados pela imprensa internacional, como Farzin Nadimi, do Washington Institute, sustentam que se o regime interpretar um confronto como uma questão existencial, poderá dispender todas as suas cartas. Esse leque de cartas inclui desde a ação militar direta até a instrumentalização de redes de aliados e o emprego da chamada guerra econômica.
A primeira e mais visível opção é a militar. O Irã dispõe de milhares de foguetes, drones e mísseis balísticos capazes de alcançar posições e contingentes americanos no terreno — e também Israel. Em junho, após um ataque surpresa atribuído a Israel, Teerã respondeu com ondas de mísseis e drones que demonstraram capacidade de penetrar, em parte, defesas aéreas adversárias.
Fontes iranianas afirmaram que parte desses arsenais foi recomposta; por seu lado, autoridades dos EUA advertiram para a permanência de uma ameaça real: entre 30 e 40 mil militares americanos permanecem alojados em oito ou nove bases na região, todas no alcance dos sistemas iranianos, segundo declarações públicas de figuras americanas. Essa disposição de forças torna complexo qualquer plano de ataque que vise a uma solução rápida e decisiva contra o próprio Irã.
Teerã também deixou claro que, em caso de ataques, pode ampliar sua resposta contra os aliados regionais dos Estados Unidos. No passado recente, após bombardeios contra sítios nucleares iranianos, o Irã lançou mísseis contra a base de al-Udeid, no Qatar — a maior instalação militar americana na região — sinalizando o caráter escalável de suas reações.
Ao lado do confronto direto, a virada pelos proxy continua central na arquitetura de poder iraniana. Apesar do desgaste sofrido pela rede regional — fruto de ofensivas israelenses e medidas de contenção — grupos como Kataeb Hezbollah e Harakat al-Nujaba no Iraque, além de Hezbollah no Líbano, mantêm vínculos que podem ser ativados em respostas coordenadas. Lideranças locais chegaram a convocar apoiadores para o que chamaram de guerra total, embora a capacidade operacional desses atores sofra limitações: Hezbollah, em especial, foi enfraquecido por mais de um ano de confronto e por tensões internas quanto ao arsenal.
Finalmente, o arsenal não convencionais de Teerã inclui opções de caráter econômico e híbrido. Fechar rotas marítimas estratégicas, ataques a navios mercantes, operações cibernéticas direcionadas a infraestruturas críticas e interferências nos mercados energéticos são cartas com potencial de causar efeitos globais. Essas medidas se alinham à lógica de uma potência que joga em assimetria: em vez de conquistar territórios, busca impor custos intoleráveis ao adversário, redesenhando fronteiras invisíveis de influência.
Em suma, o Irã dispõe hoje de um conjunto coerente de respostas — mísseis e drones, rede de proxy regionais e ferramentas de guerra econômica — que compõem uma estratégia concebida para transformar qualquer confronto em um problema de alto preço para o agressor. No grande tabuleiro da estabilidade regional, são alicerces frágeis, mas potencialmente disruptivos, capazes de reequilibrar movimentos e forçar recalibrações na tectônica de poder entre Teerã e Washington.




















