Bruxelas — Em um movimento que redesenha uma fronteira institucional até então considerada intocável, a Comissão Europeia decidiu demitir um alto funcionário envolvido no escândalo do Qatargate. Depois de um longo processo disciplinar, o colegiado de comissários pôs fim ao vínculo laboral de Henrik Hololei, ex-diretor-geral da Direção-Geral de Transportes entre 2020 e 2022.
A Vice-Presidente Executiva da Comissão, Henna Virkkunen, havia anunciado em 29 de janeiro a conclusão de um procedimento disciplinar sem revelar nomes. Fontes institucionais confirmaram posteriormente que o caso se referia a Hololei. O inquérito da unidade anti-fraude europeia, o OLAF, já havia sido concluído em julho de 2024 e remetido ao executivo europeu.
Segundo apurações, o cidadão estoniano teria aceitado viagens e estadias em hotéis de luxo oferecidas pela Qatar Airways e por representantes do Emirado durante o período em que a companhia realizava intensa atividade de lobbying para um acordo que lhe garantiria acesso preferencial ao espaço aéreo europeu — acordo que acabou suspenso. A Comissão identificou infrações em três vetores: conflito de interesses, aceitação de presentes de terceiros e divulgação de informação reservada.
Quando o escândalo estourou em março de 2023, a instituição reagiu com rapidez, endurecendo regras acerca de missões financiadas por entidades externas. Hololei, funcionário com mais de duas décadas de serviço nas estruturas europeias, havia sido afastado cautelarmente após as conclusões do OLAF e recolocado como consultor político na Direção-Geral dos Parcerias Internacionais, mantendo o salário. A decisão anunciada agora pelo colegiado não afetará o direito à pensão de aposentadoria mínima a que funcionários com dez anos de serviço fazem jus, segundo fontes internas.
Trata-se da primeira vez que um quadro desse escalão é desligado da Comissão Europeia, gesto que, simbólica e materialmente, altera os alicerces da governança administrativa comunitária. Em termos de estabilidade institucional, é um movimento decisivo no tabuleiro: sinaliza tolerância reduzida para ambiguidades éticas e tenta restaurar a confiança abalada entre centros de poder e opinião pública.
Do ponto de vista geopolítico e de políticas públicas, a ruptura exibe também uma dimensão preventiva. Ao penalizar um alto funcionário por ligações com interesses externos, a Comissão busca conter a erosão das normas que regulam o acesso de atores privados a decisões estratégicas, especialmente em setores sensíveis como o transporte aéreo.
Na arquitetura mais ampla da Europa, este episódio reitera a necessidade de fortalecer mecanismos de integridade e transparência — não como retórica, mas como prática institucional cotidiana. O caso Hololei deixa claro que mesmo os corredores mais estreitos da burocracia europeia estão sujeitos à tectônica de poder em constante mutação.






















