Por Marco Severini — Caracas promoveu um movimento de grande significado estratégico: a reforma da lei dos hidrocarbonetos que abre o setor petrolífero a investidores privados e, em consequência imediata, Washington anunciou um alívio parcial das sanções aplicadas em 2019. Trata-se de um reposicionamento que redesenha, sobre o tabuleiro da energia, os alicerces que orientaram a política venezuelana desde a era de Hugo Chávez.
A Assembleia Nacional aprovou a alteração legal que, na prática, permite a participação de capitais privados no segmento petrolífero dominado historicamente pela estatal PDVSA. O governo venezuelano qualificou a mudança como um passo para um “salto histórico qualitativo”, na linguagem oficial, e indicou que a reforma encerra o modelo socialista estrito herdado do chavismo, adotando uma pragmática arquitetura de mercado para recuperar produção e receitas.
Em reação quase imediata, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos comunicou a autorização de transações envolvendo a PDVSA e entidades em que a estatal detenha ao menos 50% do capital. Essa renúncia parcial de penalidades permite que empresas norte-americanas voltem a negociar com o grupo petrolífero, ainda que sob condições e salvaguardas específicas. O gesto de Washington foi interpretado por analistas como um movimento calculado: abrir canais comerciais sem, ao mesmo tempo, remover a pressão política que as sanções exerciam.
Fontes oficiais informaram sobre um contato telefônico entre o presidente Donald Trump e representantes do Executivo venezuelano, sinalizando abertura para reatualizar relações práticas — incluindo menções à reabertura do espaço aéreo e garantia de segurança para cidadãos americanos que eventualmente visitem o país. Essas declarações, ainda que relevantes, devem ser interpretadas no contexto de um processo negociador em desenvolvimento, cuja duração e profundidade dependem de passos subsequentes de ambos os lados.
Do ponto de vista geoestratégico, estamos diante de um movimento que se assemelha a um lance de cavalo em um final de jogo: aparentemente lateral, mas capaz de alterar linhas de ataque e defesa. A entrada de capital privado no sistema petrolífero venezuelano pode viabilizar investimentos necessários para recuperar capacidade produtiva, modernizar infraestrutura e reordenar cadeias de fornecimento. Ao mesmo tempo, a reversão parcial das sanções preserva instrumentos de pressão política que tornam o processo condicionado a resultados verificáveis.
Para a região, o redirecionamento venezuelano implica um redesenho de fronteiras invisíveis de influência: atores comerciais, empresas internacionais e governos terão agora novos incentivos para recalibrar posições. A tectônica de poder na indústria energética da América Latina poderá, assim, sofrer ajustes graduais, com impactos sobre preços, investimentos e alianças estratégicas.
Em síntese, a combinação entre a reforma da lei de hidrocarbonetos e a flexibilização restrita das medidas punitivas americanas representa um teste de equilíbrio entre pragmatismo econômico e calculada cautela diplomática. Nos próximos meses veremos se este movimento se traduz em recuperação efetiva da produção e em um novo mapa de interesses, ou se permanecerá como uma disposição tática, uma peça reposicionada no grande tabuleiro da política regional.






















