Por Chiara Lombardi — Em 30 de janeiro de 1986 estreava nas salas italianas Troppo forte, obra que consolidou Carlo Verdone não só como intérprete mas como autor capaz de decifrar a comédia italiana como um reframe da sociedade. Dirigido por Verdone, que também interpreta o protagonista, o longa traz no elenco a americana-italiana Stella Hall e o lendário Alberto Sordi. A data marca, em 2026, o 40º aniversário de um filme que continua servindo como espelho do nosso tempo.
Escrito por uma tríade improvável — Carlo Verdone, Alberto Sordi e ninguém menos que Sergio Leone — com a participação do confiável roteirista de Sordi, Rodolfo Sonego, Troppo forte constrói uma narrativa sobre ambição, ilusão e o mercado do espetáculo. O protagonista, Oscar Pettinari, é um jovem periférico que sonha em tornar-se ator. Rejeitado em mais uma prova, ele cruza o caminho do excêntrico advogado Giangiacomo Pigna Corelli in Selci (interpretado por Sordi), passa a planejar uma vingança contra um produtor e acaba envolvido num acidente encenado cujo eixo narrativo desloca-se quando a motorista é Nancy, interpretada por Stella Hall.
Nancy é uma jovem atriz italo-americana abandonada em Roma, sem recursos; acolhida por Oscar, entre os dois nasce uma amizade sincera que atravessa a comédia e o drama: é a combinação habitual do cinema verdoniano, onde o riso frequentemente se transforma em diagnóstico social. O encontro de dois mundos — a periferia romana e a promessa luminosa do cinema — encontra aqui sua semiótica: a fama como miragem, a solidariedade como recurso de sobrevivência.
Para celebrar os 40 anos de Troppo forte, reunimos curiosidades e observações que ajudam a entender por que o filme permanece relevante. Primeiro, a cooperação no roteiro: a presença de Sergio Leone como coautor é um detalhe que quase funciona como uma assinatura espanhola no desenho do humor, conferindo ao texto um ritmo e uma construção de set-pieces que lembram a precisão do grande mestre. Em seguida, a contribuição de Rodolfo Sonego, presença constante na filmografia de Alberto Sordi, que trouxe verossimilhança às figuras populares retratadas.
Outro ponto a destacar é a performance de Alberto Sordi como o advogado: uma figura que sintetiza a comédia italiana clássica, mas também aponta para um arquétipo contemporâneo — o intermediário do poder, operando entre a lei e o espetáculo. Já Stella Hall, no papel de Nancy, imprime uma presença estranha e melancólica que contrabalança o histrionismo de Oscar, acrescentando camadas dramáticas a uma fábula urbana.
Do ponto de vista estético, Troppo forte funciona como um roteiro oculto da sociedade dos anos 1980 — cenário de transformação econômica e cultural em Itália — e permanece atual justamente porque aborda a formação da identidade pela imagem. Momentos como a cena no Palazzo dello Sport de Roma tornaram-se emblemáticos: ali, a comédia encontra uma pulsão quase épica, um instante em que o público se reconhece oscilar entre riso e constrangimento.
Quarenta anos depois, o filme não é apenas nostalgia; é uma lente para reler o presente. A trajetória de Stella Hall e de outros intérpretes que brilharam no elenco é, para muitos, menos documentada que a dos protagonistas masculinos, o que alimenta o fascínio e as perguntas sobre o que acontece com as carreiras femininas no circuito cinematográfico. Mas o legado de Troppo forte persiste: é um diagnóstico cultural embalado em comédia, uma peça que nos força a ver como o espetáculo reescreve ambições e memórias.
Se, como espectadores, buscarmos o porquê por trás da fagulha que faz rir, encontraremos nesse filme um mapa de pequenas humilhações e grandes sonhos, um espelho onde a Itália dos anos 80 se reconhece e continua a se refletir.






















