Por Chiara Lombardi — A trajetória que trouxe Angelica Bove ao palco de Sanremo tem o contorno de um roteiro que mistura destino e resiliência. Nascida em 2003, romana, ela cresce em uma família numerosa e singular: um irmão mais velho, um mais novo e três irmãos que nasceram com ela numa gravidez quádrupla — uma dinâmica familiar onde, nas palavras da cantora, “se você não gritasse ninguém conseguia te escutar”. Talvez seja essa orquestra doméstica que explique por que ela canta com tanta intensidade.
Aos 18 anos veio o drama que mudou tudo: a morte súbita dos pais, que deixou os irmãos órfãos. “É um peso que carregarei para toda a vida, mas também um ponto de partida para reconstruir”, diz Angelica. Esse processo de luto e recomeço está no cerne da canção que a levou a Sanremo Giovani: “Mattone“, um tema íntimo que ela prefere interpretar diante de milhões como uma forma de partilhar e transformar a dor.
Interessante observar como o palco do Ariston funciona aqui mais como um espelho do nosso tempo do que como um ringue competitivo: Angelica confessa que a presença em Sanremo não estava nos planos e, por isso, a vive com tranquilidade — sem sentir a pressão desenfreada da competição. “O possível sucesso é como um passeio numa giostra; vou aproveitar e tentar me divertir”, afirma, com a calma de quem já enfrentou o abismo e sabe usar a narrativa a seu favor.
Na mesma sexta-feira em que pisa no festival, sai seu primeiro álbum, Tana, um pequeno tesouro de sonoridades soul e vintage. O trabalho foi assinado ao lado de Matteo Alieno — conhecido do circuito de X Factor — e de Federico Nardelli, produtor ligado a hits como “Musica Leggerissima” de Colapesce e Dimartino. Essa combinação de referências revela um projeto que não busca apenas a estética retrô, mas também um diálogo com memórias afetivas e identitárias, como num filme que recorta imagens do passado para entender o presente.
Na faixa-título, Angelica lança uma observação sociocultural: “não quero generalizar, mas invejo a leveza dos homens: eles nunca se fazem tantas perguntas” — uma frase que abre espaço para refletir sobre os papéis de gênero, a ansiedade contemporânea e a construção da leveza como privilégio. Nessa leitura, sua arte funciona como um reframe da realidade: a canção transforma o silêncio doméstico e o luto em linguagem pública.
O momento de emoção relatado no Palazzo dello Sport em Roma e a estreia em Sanremo Giovani compõem um quadro onde a artista se revela não só pela voz, mas pela capacidade de converter experiência pessoal em narrativa coletiva. Em termos culturais, é um exemplo de como o entretenimento opera como roteiro oculto da sociedade — onde cada nota é também um traço da memória coletiva.
Para além do brilho efêmero da vitrine festival, Angelica Bove parece mais interessada em construir uma trajetória autoral: uma voz que habita o passado e o presente, transformando fragmentos íntimos em canções que falam ao público. O som de Tana é esse convite: ouvir o eco cultural de uma geração que busca, nas pequenas histórias, pistas para recomeçar.






















