Marco Severini — Em um movimento que reconfigura peças sensíveis no tabuleiro da diplomacia para a Faixa de Gaza, o movimento Hamas negou categoricamente a existência de qualquer acordo para a entrega de armas. A declaração foi feita pelo veterano dirigente Mousa Abu Marzouk em entrevista à Al Jazeera, onde desautorizou rumores sobre negociações de desarmamento envolvendo os Estados Unidos ou mediadores internacionais.
Na fala de Marzouk, repete-se uma tese de Realpolitik: “não discutimos armas, ninguém nos falou diretamente deste tema”. A linha é clara — não há base negocial para a entrega, destruição ou rendição do arsenal do movimento. Em termos estratégicos, trata-se de uma defesa do controle sobre um dos factores essenciais de poder dentro da tensão tectônica que molda a governabilidade da Gaza.
O dirigente acrescentou um questionamento retórico com implicações geopolíticas: se Israel, os Estados Unidos e seus aliados não lograram desarmar o movimento após dois anos de conflito, por que acreditar que canais negociados produziriam esse resultado? A pergunta é, em si, um diagnóstico sobre os limites dos instrumentos diplomáticos tradicionais frente a estruturas de autoridade enraizadas.
Paralelamente à negação sobre as armas, o debate político sobre o futuro da administração da Faixa permanece aberto. O movimento declarou estar disposto a transferir a governance local para um comitê de tecnocratas palestinos, uma solução que tende a ser apresentada como um mecanismo técnico para estabilizar serviços públicos e segurança enquanto permanece intacta a capacidade armada de resistência.
Fontes internas de Gaza e vozes do próprio Hamas afirmam que o atual governo local será dissolvido assim que o comitê diretivo tecnocrático tomar posse e assumir o controle operacional do território — uma transição que, no discurso oficial do movimento, preserva a sua autoridade política e garante continuidade administrativa. Em outros termos, Hamas propõe um redesenho funcional das instituições sem ceder a seu núcleo coercitivo.
Essa postura deve ser lida como um movimento de xadrez: deslocar peças de visibilidade pública — a administração cotidiana — sem abandonar a torre estratégica que são as capacidades armadas. A manobra cria um alicerce dual, com uma face tecnocrática para interlocução internacional e outra, menos visível, de manutenção do poder real.
O quadro é fortemente condicionado pelo estado físico e social da Faixa de Gaza: a devastação, os desafios humanitários e a própria dificuldade logística de uma reconstrução ampla reduzem a margem de manobra para soluções simplistas. Analistas apontam que qualquer transferência de competências será avaliada, passo a passo, por potências regionais e globais interessadas em preservar seus eixos de influência.
Como observador com foco estratégico, é imprescindível notar que a negação sobre o desarmamento e a oferta de um comitê tecnocrático não são contraditórias, mas complementares numa lógica de proteção de interesses. O futuro imediato dependerá da capacidade dos mediadores — e da comunidade internacional — em aceitar arranjos que privilegiem a estabilidade operacional sem exigir concessões que, na visão de Hamas, comprometeriam sua função política e militar.
Assinado,
Marco Severini
Analista sênior em estratégia e geopolítica — Espresso Italia






















