Por Marco Severini — A Rússia deu um passo claro para controlar o formato das negociações ao declarar que um eventual encontro entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky só pode ocorrer em Moscou. Do Kremlin chegam posições firmes: nenhuma alternativa de sede será aceita e a discussão sobre uma pausa nas hostilidades, reclamada por Kiev, foi sumariamente rejeitada pelo ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, informou que a proposta russa é clara: se o presidente ucraniano estiver disposto a dialogar, o encontro tem de ser em Moscou. Essa exigência elimina, desde o início, cenários de mediação em capitais neutras ou em sedes multilaterais. Na linguagem da diplomacia, trata-se de fixar as coordenadas do tabuleiro antes mesmo de iniciar o lance.
Lavrov reproduziu a linha dura: a trégua de 60 dias — ou período mais longo — repetidamente solicitada por Zelensky é, segundo o chanceler, “para nós inaceitável”. A rejeição atinge diretamente a proposta de cessar-fogo que Kiev tem buscado para reagrupamento e negociações. A posição russa indica que não se trata apenas de uma objeção tática: é um princípio que condiciona qualquer conversa subsequente.
Na mesma esteira, o conselheiro presidencial russo Yuri Ushakov sublinhou que, se o encontro ocorrer, precisa ser “bem preparado” e orientado a “resultados positivos concretos”. Ushakov identificou a questão territorial, com ênfase no Donbass, como o núcleo central de qualquer tratado — embora haja, segundo ele, “muitas outras questões” no tabuleiro das negociações. Também ressaltou que não há, até agora, um acordo russo sobre garantias de segurança para a Ucrânia.
Paralelamente, circulam reportagens que atribuem à administração americana da época de Donald Trump a condição de que garantias de segurança dos EUA a Kiev estariam vinculadas a um acordo de paz que poderia incluir concessões territoriais, como a cessão do Donbass à Rússia. Trata-se de hipóteses que, se confirmadas, revelariam um redesenho de influências e compromissos que alterariam as bases de segurança da região.
Do ponto de vista estratégico, a conjuntura mostra dois vetores claros: Moscou busca controlar o ritmo e o espaço dos contatos — impondo Moscou como palco — e recusa soluções de pausa temporária que possam consolidar posições ucranianas. Kiev, empenhada em obter um cessar-fogo para consolidar defesa e buscar suporte internacional, vê sua principal carta rejeitada.
Como observador das dinâmicas internacionais, lembro que acordos de paz duradouros exigem mais do que encontros protocolares; exigem desenho institucional, garantias verificáveis e mecanismos de implementação. A insistência russa em centralizar as conversas em sua capital é um movimento típico de quem quer comandar tanto as regras da negociação quanto o ritmo das concessões — um lance de xadrez que altera as linhas de iniciativa.
Em breve: se houver um encontro, o teste será não apenas a presença dos dois presidentes, mas o desenho prévio daqueles “contatos bem preparados” de que fala Ushakov. Sem isso, a diplomacia corre o risco de transformar um gesto simbólico num ponto de tensão adicional, com alicerces frágeis e consequências estratégicas profundas para a estabilidade europeia.





















