Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha temporariamente linhas de poder no tabuleiro institucional americano, os Estados Unidos caminham para um shutdown parcial do governo federal. A provável derrota, no Senado, de um projeto de lei orçamentária aprovado pela Câmara reflete um impasse centrado no papel do ICE e na supervisão do Departamento de Segurança Interna (DHS).
Os fundos para várias agências do governo expiram à meia-noite entre sexta e sábado. Sem a aprovação de recursos para esses serviços federais — inclusive o DHS — a administração entrará em interrupção parcial de atividades. O que transforma o gesto técnico de uma votação em movimento estratégico é a reação pública e parlamentar desencadeada pela morte, no sábado anterior, do enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, baleado por agentes federais durante protestos contra a presença do ICE em Minneapolis.
O episódio gerou uma reação enérgica do campo democrata: senadores exigem salvaguardas mais rigorosas sobre o funcionamento do ICE e condicionam seu apoio ao orçamento à revisão de políticas de aplicação da imigração. “Os americanos apoiam as forças da lei e a segurança das fronteiras, mas não apoiam que o ICE instale o terror nas nossas ruas e mate cidadãos”, afirmou o líder democrata no Senado, Chuck Schumer.
No sistema de regras do Senado, são necessários 60 votos em 100 para aprovar muitos projetos importantes — um obus procedural que força os Republicanos, apesar da maioria formal, a buscar o apoio de dissidentes democratas. Um voto procedimental estava marcado para a manhã de quinta-feira, com ampla expectativa de derrota para a proposta original vinda da Câmara.
Os democratas propuseram aprovar cinco das seis seções do pacote orçamentário, separando a do DHS para negociações sobre reformas. Como a Câmara havia votado o pacote como um todo, a separação da parte do DHS obrigaria a Câmara a votar novamente em nova redação, o que, na prática, precipitaria o shutdown à meia-noite de sexta.
Geopolítica doméstica e mecanismos institucionais colidem aqui como peças num jogo de xadrez: um movimento ostensivo na Câmara cria uma vulnerabilidade tática que o Senado, pela sua arquitetura de regras, pode explorar ou bloquear. O risco é imediato e concreto — centenas de milhares de funcionários federais podem ser colocados em licença não remunerada, enquanto trabalhadores considerados “essenciais” (controladores de tráfego aéreo, militares, forças de segurança) continuam a operar sem pagamento até o fim da paralisação.
Em recorde recente, o país experimentou o shutdown mais longo em novembro passado, quando disputas partidárias se estenderam por 43 dias. Esse precedente demonstra a fragilidade dos alicerces administrativos quando a tectônica de poder entre Executiva e Legislativo se move sem consenso.
O desfecho permanecerá determinado por negociações que mesclam pressão pública, considerações eleitorais e cálculo parlamentar frio. No tabuleiro, cada movimento vale mais do que o imediato: configura, também, precedentes institucionais e espaço de manobra para a política de imigração. Enquanto isso, a nação acompanha o relógio que aponta para a meia-noite decisiva.






















