Por Marco Severini — Em decisão fundamentada de cerca de vinte páginas, as três promotoras suíças responsáveis pelo inquérito sobre o incêndio no LeConstellation sustentam que as lacunas de segurança eram de conhecimento do Comune de Crans-Montana antes do sinistro de 1º de janeiro de 2026. O despacho rejeita o pedido do município para constituir-se parte civil, ao mesmo tempo em que descreve um quadro de responsabilidades múltiplas e falhas institucionais.
As magistradas sintetizam os achados provisórios da investigação: existem fortes indícios de cometimento dos crimes de incêndio doloso por negligência, homicídio culposo por negligência e lesões corporais graves por negligência atribuíveis, em primeiro plano, a Jacques Moretti e Jessica Moretti. Segundo o relatório, o fogo teve início por uso de dispositivos pirotécnicos por parte do pessoal do estabelecimento no ambiente do subsolo, o que gerou a rápida ignição do teto em espuma e desencadeou um fenômeno de flashover.
A propagação extremamente acelerada das chamas aponta, para as promotoras, uma não observância das normas contra incêndios e violações de requisitos básicos de segurança. Em especial, chama-se a atenção para a ausência de instruções claras ao staff quanto aos riscos de utilizar fontes incandescentes perto de materiais inflamáveis — uma falha procedimental que, na perspectiva das autoridades, contribuiu decisivamente para a tragédia.
Sobre a conduta do Comune, o despacho é rigoroso: o município teria se limitado a relacionar diversas infrações ao direito urbanístico sem demonstrar nexo causal entre essas irregularidades e os factos penais em apuração, nem tentar comprovar a veracidade das alegadas violações. Não se explica, segundo as promotoras, por que a eventual desativação da saída de emergência do subsolo constituiria um problema estrutural de interesse urbanístico. Ademais, há indícios de que o município, embora possivelmente ciente da situação antes do incidente de 1º de janeiro, não teria adotado medidas coercitivas adequadas.
Esse quadro delineia uma confluência de responsabilidades: erros operacionais no interior do estabelecimento, deficiências normativas e, possivelmente, omissão administrativa. Em linguagem de estrategista: trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da responsabilidade pública, onde peças mal posicionadas — inspeções ineficazes, instruções defasadas e aplicação vacilante da lei — tornam os alicerces da segurança mais frágeis.
As promotoras, ao recusar a constituição do município como parte lesada, não eximem o Comune de escrutínio; pelo contrário, apontam para a necessidade de clarificar até que ponto falhas administrativas integraram as condições do desastre. A investigação prossegue, com novos inquéritos técnicos e jurídicos destinados a mapear com precisão as cadeias causais e as responsabilidades penais.
Enquanto isso, a tragédia em Crans-Montana permanece como um alerta sobre a tectônica de poder entre autoridades públicas e operadores privados: a estabilidade da ordem pública depende tanto de regras bem desenhadas quanto de sua aplicação firme — sem isso, o risco de recomposição de fronteiras invisíveis da segurança se mantém elevado.
Marco Severini, Espresso Italia — análise sênior em geopolítica e estratégia internacional.






















