Por Marco Severini — Em um movimento que altera a geografia política do hemisfério como um lance decisivo no tabuleiro, o presidente Donald Trump anunciou nesta quinta-feira a imediata reabertura do espaço aéreo comercial sobre a Venezuela. A decisão, comunicada após uma conversa telefônica com a vice‑presidente venezuelana Delcy Rodríguez, foi apresentada na Casa Branca como o primeiro passo visível de um reposicionamento estratégico entre Washington e Caracas.
Segundo Trump, ele ordenou que o secretário dos Transportes, Sean Duffy, juntamente com autoridades militares e demais agências competentes, tomasse as providências necessárias para que, “até o fim do dia”, o espaço aéreo venezuelano estivesse liberado e as rotas comerciais pudessem ser restabelecidas. “Os cidadãos norte‑americanos poderão viajar para a Venezuela muito em breve e estarão seguros, pois o país estará sob controle”, declarou o presidente, em tom que mistura segurança e otimismo econômico.
O anúncio interrompe um período de suspensão das operações aéreas iniciado de forma escalonada nos últimos anos: a última companhia aérea americana a operar linhas entre os dois países foi a American Airlines, que cessou serviços em 2019, data que coincidiu com a ruptura definitiva das relações diplomáticas. Companhias europeias e latino‑americanas suspenderam voos para Caracas em novembro; muitas planejavam retomar operações já no domingo anterior ao pronunciamento, mas tiveram seu cronograma alterado pela nova ordem de Washington.
Na sua intervenção perante o gabinete, Trump elogiou a liderança venezuelana, afirmando que “os laços são muito fortes e muito bons”. O presidente mencionou a chegada de grandes petroleiras americanas ao país e descreveu manifestações de apoio popular — “o povo da Venezuela saiu às ruas com bandeiras americanas, todos muito felizes”, disse — numa narrativa que combina interesses comerciais com mensagens de legitimidade pública.
Paralelamente, em Caracas, a Assembleia Nacional aprovou uma reforma da lei dos hidrocarbonetos que, segundo as autoridades e observadores internacionais, foi acelerada sob pressão externa. A reforma reduz tributos e flexibiliza contratos, abrindo espaço para investimentos privados e contratos mais favoráveis às empresas estrangeiras. Importa notar a correlação temporal: a alteração legislativa ocorre menos de um mês após o que o relato oficial denomina como uma intervenção militar dos Estados Unidos que culminou na captura de Nicolás Maduro. Esse encadeamento de atos — militar, legislativo e diplomático — configura um redesenho das fronteiras invisíveis do poder no país.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento com múltiplas camadas: a reabertura das rotas aéreas não é apenas uma decisão técnica sobre fluxos e segurança; é também um gesto de normalização que pode acelerar capitais, logística e influências políticas. É um lance que muda a configuração das peças no tabuleiro hemisférico, reconstruindo alicerces que até recentemente pareciam frágeis.
Resta observar a reação das companhias aéreas, dos governos regionais e dos próprios venezuelanos nas próximas horas e dias. A implementação prática da medida — autorizações de pouso, corredores seguros e garantias consulares — exigirá coordenação complexa entre agências civis e militares, onde deslizes podem comprometer tanto a segurança quanto a propaganda política de ambos os lados.
Em suma, a ordem de Donald Trump para reabrir o espaço aéreo é um movimento estratégico com repercussões imediatas sobre viagens, investimentos e a tectônica de poder na Venezuela e na região. Como em uma partida de xadrez de alto nível, cada avanço abre novas possibilidades — e novas vulnerabilidades.






















