Por Marco Severini — Em um movimento de clara leitura estratégica no tabuleiro diplomático, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer desembarcou em Pequim para a primeira visita de um premiê do Reino Unido à China desde 2018. Seguindo a trilha recente de interlocuções de alto nível — após Emmanuel Macron e Mark Carney — a delegação de Londres marcou presença com cerca de cinquenta líderes empresariais, em busca de estabilizar e recalibrar uma relação que nos últimos anos sofreu tensões e reveses.
O encontro entre Starmer e Xi Jinping teve tom pragmático e buscou combinar realismo estratégico com uma retórica de reabertura. Do ponto de vista concreto, os dois lados selaram um acordo para reduzir alíquotas sobre as exportações de whisky britânico de 10% para 5% e anunciaram isenção de visto para estadias inferiores a 30 dias. Assinaram-se também entendimentos em áreas como saúde, serviços e combate à imigração irregular — peças relevantes no mosaico econômico e político que Londres procura reconstruir.
Starmer sublinhou a necessidade de “construir uma relação mais articulada, na qual identifiquemos oportunidades de colaboração e, ao mesmo tempo, mantenhamos um diálogo construtivo sobre as questões em que discordamos”. Na Grande Sala do Povo, Xi Jinping correspondeu ao tom formal: como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e potências econômicas, China e Reino Unido devem fortalecer o diálogo e a cooperação, tanto em segurança internacional quanto em economia. Foi evocado o desejo de abrir um “novo capítulo” após as “battute d’arresto” dos últimos anos.
As divergências, porém, permanecem como alicerces frágeis na arquitetura das relações. Entre elas, destacam-se as preocupações britânicas sobre direitos humanos — incluindo a situação de Hong Kong — e a condição da minoria muçulmana dos uiguros. Starmer afirmou ter mantido uma “discussão respeitosa” com Xi sobre esses pontos espinhosos, além do caso do ativista e ex-magnata dos media Jimmy Lai — cidadão com passaporte britânico, condenado ao final de 2025 e sujeito a pena máxima que inclui risco de prisão perpétua.
Do ponto de vista econômico, a visita teve gestos substanciais: o grupo farmacêutico AstraZeneca anunciou um investimento de 15 bilhões de dólares na China até 2030. A presença de numerosos empresários mostra que Londres aposta numa combinação de diplomacia estatal e pressão dos interesses comerciais para reconstruir canais de influência e comércio — uma tentativa de preencher, ao menos parcialmente, o vazio deixado por oscilações da política externa americana.
Em suma, a missão de Keir Starmer a Pequim não produz resultados espetaculares, mas encaminha um movimento calculado: reduzir atritos comerciais, abrir vias práticas de cooperação e preservar espaço para discordâncias sobre princípios. É um lance no tabuleiro global — não definitivo, mas suficientemente estratégico para alterar a tectônica de poder entre Europa e Ásia num momento em que o Ocidente busca reencontrar estabilidade nas suas relações com Pequim.






















