Por Marco Severini — A imagem reducionista que o presidente Donald Trump tentou projetar sobre a Groenlândia — a de um território defendido por “duas trenós puxados por cães” — é um equívoco estratégico que ignora as realidades operacionais e geopolíticas do Ártico. No terreno, quem garante a vigilância nas áreas mais remotas é a patrulha Sirius, uma unidade naval de elite dinamarquesa que opera em condições extremas, com procedimentos e práticas moldados por décadas de experiência polar.
Segundo o ex-membro Sebastian Ravn Rasmussen, hoje com 55 anos, as patrulhas no norte e leste da Groenlândia se valem de seis esquadrões de duas pessoas cada, cada equipe apoiada por cerca de dez cães e uma trenó. A escolha não é nostálgica: é funcional. “Uma motoniveladora ou uma motoneve poderia quebrar em pouco tempo nessas latitudes. A trenó puxada por cães resiste; pode ser consertada; e os cães permitem deslocamentos prologados em distâncias enormes e em isolamento absoluto”, aponta Ravn Rasmussen.
Há aqui uma lição de Realpolitik operacional: presença contínua e dissuasiva no terreno vale mais que imagens aéreas pontuais. Helicópteros e satélites ampliam capacidade de detecção, mas não substituem a percepção humana que somente o contato com o solo pode fornecer. “É preciso estar na terra para ver, cheirar e perceber se houve passagem de terceiros em zonas onde não deveriam estar”, diz o ex-patrulheiro.
As patrulhas de inverno são reduzidas em número em novembro e dezembro; no verão, a vigilância se desloca para patrulhamento por navios. A tarefa da patrulha Sirius não é banal: salvamentos de embarcações — entre elas um cruzeiro encalhado em 2023 — e a fiscalização de expedições estrangeiras já constam entre suas ações públicas. Em um episódio que ilustra a proteção do espaço soberano, a patrulha impediu uma expedição russa de ingressar no Parque Nacional do nordeste da Groenlândia sem autorizações. Grande parte da atividade, porém, permanece classificada.
Nos aspectos mais duros da vida polar, os patrulheiros carregam armamento para defesa contra ursos polares e bois-almiscarados e sabem que, em emergências extremas, podem recorrer a medidas de sobrevivência impensáveis em outras latitudes. “A possibilidade de perder cães ou até de que se tornem recurso de sobrevivência existe, embora seja remota”, admite Ravn Rasmussen com a frieza de quem já avaliou riscos no terreno.
Politicamente, as ameaças de Trump de “apoderar-se” da Groenlândia por seus recursos minerais e por suposta insuficiência da proteção dinamarquesa em face da Rússia e da China, constituem um gesto retórico num tabuleiro maior. A Dinamarca, por sua vez, investe milhares de milhões de euros para reforçar a segurança da ilha autônoma. No teatro da geopolítica ártica, a mensagem de fundo é clara: presença física e conhecimentos locais são alicerces muito mais estáveis do que o espetáculo midiático.
Do ponto de vista estratégico, a existência da patrulha Sirius representa um movimento decisivo no tabuleiro do Ártico. Não é apenas uma operação de busca e salvamento ou um policiamento local: é uma manifestação concreta de soberania, uma linha de contenção flexível que se apoia em métodos adaptados ao ambiente. Enquanto os grandes atores disputam influência por vias diplomáticas e econômicas, as patrulhas de cães mantêm um contato direto com a vastidão branca, reduzindo a distância entre intenção política e capacidade de ação.
Como analista, vejo nessa combinação de tradição e tecnologia — trenós e navios, cães e satélites — a arquitetura prática da segurança ártica contemporânea. A Groenlândia não é um mero objeto de negociação: é um tabuleiro com peças em movimento, onde a resiliência operacional, mais do que o estrépito retórico, decide consequências.
Marco Severini, Espresso Italia — Análise geopolítica e estratégica.






















