Vannacci colocou o centro-direita italiano diante de um novo enigma. Em conversas reservadas, um esponente de destaque de Fratelli d’Italia minimizou o impacto do eurodeputado: “Nenhuma preocupação com Vannacci. Não tem votos, é um general solitário, sem estrutura. Se saísse da Lega, não haveria espaço para ele no centro-direita. Uma eventual formação de cunho ‘filo-russo’ teria dificuldade em fechar acordos com a coalizão”.
Em Forza Italia, a leitura é semelhante: trata-se de um problema interno da Lega, não do bloco. “Não partilhamos as suas posições”, repetem os azzurri, descartando uma escalada que envolva toda a coalizão.
Enquanto se aguarda o encontro anunciado por Matteo Salvini — o qual o próprio secretário da Lega prometeu realizar em breve —, o centro-direita debate as próximas jogadas políticas do general. Salvini tentou aparar arestas: afirmou que há espaço na Lega para diferentes sensibilidades e que o encontro servirá para “clarear tudo”. “É um problema para os jornalistas, não para os italianos”, cortou ele, sublinhando que o partido está focado em “construir” prioridades como a segurança.
No entanto, dentro da própria Lega não falta inquietação. Há quem tema que Vannacci busque desgastar o partido para impor condições de permanência ou reivindicar um assento de destaque nas listas em preparação. Entre os mais críticos estão governadores do Norte: o presidente da Região da Lombardia, Attilio Fontana, definiu o eurodeputado como “uma anomalia” e contestou a criação de núcleos e logotipos fora da estrutura partidária. O ex-governador do Vêneto, Luca Zaia, alinhou-se a essa leitura e, segundo fontes internas, chegou a sugerir a Salvini que assumisse a responsabilidade por uma eventual decisão de expulsão de Vannacci.
Salvini, contudo, parece empenhado em esgotar a via do diálogo antes de medidas disciplinares. Há um cálculo político por trás: a convivência com Vannacci em uma campanha que se anuncia acirrada pode complicar a estratégia de candidaturas no Norte, onde circula a hipótese de apresentar nomes como Zaia e Fontana. A gestão de uma campanha com figuras tão distintas é um dos “alicerces” em jogo neste momento.
Outro fator que torna o cenário incerto é a indefinição sobre a futura lei eleitoral. No centro-direita perguntam-se: “Como lançar-se à disputa se não se sabe com que regras e que quórum?” Esse ponto é crucial para qualquer movimento novo que, segundo apoiadores próximos a Vannacci, poderia surgir caso a interlocução com a Lega fracasse. Ainda assim, a incerteza normativa e a falta de estrutura eleitoral tornam qualquer aventura arriscada.
Do lado dos “vannacciani” há expectativa pelo encontro com Salvini, mas também cautela: formar uma nova entidade política sem clareza sobre o sistema de votação é uma construção que pode desabar ao primeiro vento institucional. Em síntese, a situação é um teste para a capacidade de coesão do centro-direita: será que a coalizão consegue manter a ponte por meio do diálogo interno, ou as tensões irão derrubar fragmentos dessa arquitetura antes mesmo das listas finais?
Enquanto isso, nos corredores de Roma, as peças continuam a se mover — e cada decisão poderá afetar o mapa das candidaturas, especialmente no Norte. A política, aqui, é uma obra em progresso: alguns tentam erguer pontes; outros já sondam alternativas fora da estrutura. A caneta de Salvini e o pulso dos governadores decidirão se Vannacci fica a bordo ou será empurrado para fora do navio.
Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia — observador das decisões de Roma e suas repercussões na vida dos cidadãos.






















