João Canijo, um dos cineastas mais incisivos do cinema português contemporâneo, morreu aos 68 anos. O corpo do diretor foi encontrado em sua casa em Vila Viçosa, no Alentejo. Segundo as primeiras informações, a causa foi um ataque cardíaco súbito enquanto trabalhava na pós-produção de um novo díptico cinematográfico.
Nascido no Porto em 1957, João Canijo construiu uma filmografia marcada por um realismo social e psicológico que atuava como um verdadeiro espelho do nosso tempo. Após uma fase inicial dedicada aos curtas, estreou-se na direção de longas em 1988 com “Três menos eu” (Tre meno io), abrindo caminho para obras que exploravam os contornos íntimos e coletivos da experiência portuguesa.
Ao longo da carreira, Canijo assinou títulos que se tornaram referências do cinema luso: “Ganhar a Vida” (2000), sobre a emigração portuguesa para a França; “Noite Escura” (2004); “Fátima” (2017), que acompanha a peregrinação feminina à cidade das aparições; e “Sangue do Meu Sangue” (2011), entre outros. Dois de seus últimos projetos eram o díptico “Vivere male” e “Male di vivere”, sendo este último laureado com o Orso d’Argento (Urso de Prata) no Festival de Berlim em 2023 — um reconhecimento que consolidou sua voz como autoral e eticamente contundente.
A trajetória cinematográfica de Canijo também passou por colaborações internacionais importantes: antes de dirigir seus próprios filmes, trabalhou como assistente de direção de nomes consagrados, entre eles Wim Wenders em “The State of Things” (1982) e Werner Schroeter em “The Rose King” (1986). Essas experiências foram parte do roteiro oculto que formou sua sensibilidade — um entrelaçar de influências europeias com uma atenção vívida às dinâmicas sociais de Portugal.
No momento de sua morte, o diretor havia terminado as filmagens de outro díptico, intitulado provisoriamente “Messa in scena” e “Le Ucraine”, e estava envolvido na etapa de pós-produção. A interrupção súbita dessa obra deixa questões em aberto sobre o fechamento de um ciclo autoral que sempre perseguiu a verossimilhança emocional e o exame crítico das relações humanas.
Como crítica cultural, percebo em João Canijo a figura de um cineasta que usava a câmara como um instrumento de sociologia íntima: suas imagens funcionavam como uma lente de aumento sobre os conflitos familiares, econômicos e morais do nosso tempo. O prêmio em Berlim por “Male di vivere” não foi apenas um reconhecimento estético, mas a confirmação de que seu cinema ressoava internacionalmente como um eco cultural — a semiótica do viral transformada em cinema sério.
A morte de Canijo marca a perda de uma voz coletiva, alguém capaz de transformar cenas domésticas em afrescos sociais. Resta ao público e à crítica revisitar sua obra, procurar ali o roteiro escondido da sociedade portuguesa e lembrar que, no cinema dele, o íntimo sempre é política.
João Canijo deixa legado artístico e uma filmografia que continuará a provocar debates sobre memória, identidade e o papel do cinema como espelho e intervenção no mundo.
















