Por Marco Severini — Espresso Italia. Em um movimento que altera, mais uma vez, as coordenadas do tabuleiro regional, o governo israelense passou a admitir que o número de mortos na Faixa de Gaza durante o conflito ultrapassa os 70 mil. A cifra, declarada com reservas por fontes militares e diplomáticas de Israel, espelha os números divulgados pelo ministério da Saúde controlado por Hamas, e reacende o debate sobre a contabilização de vítimas em zonas de guerra onde as linhas entre combatentes e civis permanecem controversas.
O Exército israelense informou, via IDF, que suas estimativas internas apontam para um total superior a 70.000 mortos na Faixa de Gaza. Veículos de imprensa locais citam também que as autoridades sanitárias de Gaza contabilizam 71.667 óbitos desde 7 de outubro de 2023. Um alto funcionário de segurança, ouvido pelo Times of Israel, declarou que a distribuição precisa entre combatentes e civis ainda está em revisão, e que não há clareza total sobre quantos dos mortos eram membros de “grupos terroristas”.
As estatísticas tornaram-se objeto de disputa política: o ministério palestino afirma que pelo menos 440 pessoas morreram por desnutrição e fome durante o cerco à região, enquanto autoridades israelenses alegam que algumas contas são inflacionadas por inclusão de indivíduos com condições médicas pré-existentes. Analistas internacionais, por sua vez, consideram que os números divulgados por Gaza são plausíveis ou mesmo potencialmente subestimados, dada a escassez de serviços básicos, bloqueios e níveis elevados de destruição civil.
Na madrugada, a Força Aérea israelense atingiu um grupo de oito indivíduos descritos como “terroristas” após saírem de um túnel em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Segundo o comunicado do IDF, três foram mortos no ataque e houve ações subsequentes nas áreas onde se presume que os demais se refugiaram; tropas de solo estariam vasculhando a região.
Paralelamente ao epicentro gazaico, a diplomacia e a segurança tornaram-se peças de um mesmo tabuleiro em outras frentes: em sessão do Conselho de Segurança da ONU, o representante permanente da Síria, Ibrahim Alabi, reiterou que quaisquer negociações de segurança com Israel não representam renúncia aos direitos sírios no sul do país — em especial nas Colinas de Golan e nas áreas de fronteira. Alabi acusou forças israelenses de «provocações repetidas», citando estabelecimentos de postos de bloqueio, pulverização de substâncias tóxicas sobre terrenos sírios, detenções arbitrárias e presença militar além da zona desmilitarizada, incluindo posicionamentos estratégicos no Monte Hermon e na província de Quneitra.
O quadro exposto pelo representante sírio descreve um redesenho silencioso de influência na borda sul do Levante — movimentos que, embora distintos do violento epicentro em Gaza, alimentam a pressão sobre a arquitetura regional de segurança. A coexistência de uma trégua frágil na Faixa e a simultânea intensificação de incidentes na periferia síria revelam alicerces diplomáticos frágeis e um jogo de poder em múltiplos planos.
Historicamente, quando se joga uma partida de alto risco no tabuleiro do Oriente Médio, cada lance que altera números de vítimas ou posições estratégicas redefine futuras negociações. A admissão israelense dos mais de 70 mil mortos em Gaza constitui, portanto, não apenas um dado estatístico, mas um fator de dinâmica política que influenciará apelos humanitários, investigações internacionais e possíveis termos futuros de estabilidade—ou de novo ciclo conflitivo.
O panorama permanece em mutação: enquanto as tropas vasculham Rafah e os diplomatas trocam notas no Conselho de Segurança, o que se move é uma tectônica de poder, onde a verdade dos números convive com a estratégia das narrativas. A comunidade internacional observa, cautelosa, os próximos lances desse jogo que ainda terá desdobramentos decisivos para a segurança regional.






















