Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance tático num tabuleiro de xadrez estratégico, o cenário ucraniano voltou a apresentar sinais de fratura e de possível contenção temporária. O ex-presidente norte‑americano Donald Trump anunciou um cessar‑fogo de sete dias destinado a proteger civis das consequências de uma onda de frio na Ucrânia, afirmando que o presidente russo Putin teria dado o seu aval. No entanto, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky declarou que não existe, até o momento, nenhum acordo oficial sobre uma trégua voltada especificamente aos alvos energéticos.
Na sua avaliação pública, Zelensky qualificou a iniciativa mais como uma oportunidade proposta por mediadores — com papel explícito dos Estados Unidos e de Trump — do que como um compromisso formal entre as partes. Segundo o mandatário ucraniano, a lógica apresentada ao público foi simples: se Moscou interromper os ataques às infraestruturas energéticas ucranianas, Kiev deixaria de atingir instalações energéticas russas em resposta. Trata‑se, portanto, de um armistício condicional e com escopo limitado, e não de um tratado ou de um pacto assinado.
Num gesto que revela os alicerces frágeis da diplomacia em tempos de conflito, Zelensky acrescentou que a Rússia interrompeu o processo de intercâmbio de prisioneiros por considerar que isso não lhe traria vantagens imediatas. “Os russos bloquearam o processo. Não estão muito interessados no intercâmbio porque não veem benefícios”, afirmou o presidente ucraniano, lembrando que a lógica do poder nem sempre coincide com a lógica humanitária — e que, mesmo assim, há custos humanos e militares que devem ser considerados por Moscou.
No front doméstico, a capital ucraniana sente diretamente os efeitos da campanha de ataques. O prefeito de Kiev, Vitaliy Klitschko, relatou em seu canal no Telegram que cerca de 378 prédios residenciais permanecem sem aquecimento — a maioria concentrada em Troyeschyna. Segundo ele, nas últimas 24 horas houve recuperação parcial do serviço: os primeiros 100 edifícios de Troyeschyna voltaram a receber aquecimento e mais 50 seriam reativados na noite seguinte.
Enquanto isso, a estatística militar não dá trégua. O Estado‑Maior ucraniano informou que nas últimas 24 horas ocorreram 279 confrontos ao longo da linha de frente. A aviação e as defesas ucranianas reportaram que a Rússia lançou um míssil balístico Iskander‑M e uma onda de 111 drones de ataque, entre os quais modelos Shahed, Gerbera e Italmas. Moscou, por sua vez, afirmou que suas defesas antiaéreas abateram 18 drones ucranianos sobre o território russo, com incidentes registrados em áreas como a Crimeia, o Mar Negro e as regiões de Rostov, Astrakhan e Kursk.
Do lado diplomático mais amplo, o diretor do departamento de assuntos europeus do Ministério das Relações Exteriores russo, Vladislav Maslennikov, acusou a NATO de inserir elementos de conflito em regiões anteriormente tidas como pacíficas, citando inclusive o Ártico. Tal declaração faz parte da retórica estratégica que desenha uma tectônica de poder em expansão, onde frentes e influências são redesenhadas também pela percepção pública e pela pressão simbólica.
O anúncio de Trump sobre uma possível pausa nas hostilidades para enfrentar a crise humanitária do frio foi discutido, segundo relatos, em conversas entre delegações. Porém, sem um instrumento formal assinado ou verificado por observadores independentes, o que existe é uma declaração de intenção — um movimento no tabuleiro que pode ou não traduzir‑se em alteração duradoura das dinâmicas bélicas.
Do ponto de vista da estabilidade internacional, trata‑se de uma situação de alto risco e baixa certeza: uma trégua limitada pode aliviar sofrimentos imediatos, mas sem garantias institucionais corre o risco de ser apenas uma pausa temporária que não altera as linhas estratégicas do conflito. Em termos de geopolítica, é um lembrete de que as negociações, mesmo quando anunciadas com pompa, frequentemente seguem ocultas nas salas de diplomacia onde as peças são movidas com cautela.






















