Gianrico Carofiglio, ex-magistrado e autor conhecido, avaliou de forma direta a recente reviravolta nas intenções de voto sobre o referendum pela reforma da giustizia. Em participação no programa L’aria che tira (La7), Carofiglio correlacionou a subida do No nas sondagens ao aumento da circulação de informações sobre o conteúdo e os efeitos da reforma proposta pelo governo.
Segundo o instituto Ixè, o quadro já aparece praticamente em equilíbrio: 50,1% para o Sì contra 49,9% para o No. Diante desse cenário, o comentário do ex-magistrado foi incisivo: “A razão principal é clara: antes a população não sabia nada; agora começa a saber algo”.
Na sua leitura técnica, o problema não é apenas a informação que chega tardiamente, mas um padrão sistêmico de desinformação instrumentalizado pelo bloco governista. Carofiglio afirmou, com rigor institucional, que a maioria que conduziu a reforma o fez com “modalità quasi militari”, sem promover o imprescindível acordo e a colaboração entre forças políticas quando se trata de mexer em núcleos constitucionais sensíveis.
O centro do alerta técnico do entrevistado recai sobre o Consiglio Superiore della Magistratura (CSM). Carofiglio definiu como o “centro doloroso, pulsante e perigoso” da reforma a intenção — segundo ele — de transformar o mecanismo de nomeação do CSM em algo próximo a um processo por sorteio: “Se o referendo passasse, e eu não creio que passe, pretenderiam que o CSM fosse nominato per sorteggio, cioè la tombola”.
Em tom pragmático e com pergunta retórica dirigida ao apresentador David Parenzo, Carofiglio fez o exercício de tradução institucional: “Você aceitaria que o seu Conselho Circoscrizionale, o Conselho Communale ou o Conselho Regionale fossem constituídos por sorteio? Ninguém o aceitaria”. A pergunta tem caráter explicativo: levar o público a compreender a magnitude da alteração proposta nos equilíbrios constitucionais.
Durante a conversa, Parenzo exibiu um cartaz com a inscrição “Sinistra per il sì”, acompanhado por rostos e nomes de figuras que declararam apoio ao Sì: Pina Picierno, Anna Paola Concia, Raffaella Paita, Claudio Petruccioli, Stefano Esposito, Stefano Ceccanti, Augusto Barbera, Cesare Salvi e Enrico Morando. A reação de Carofiglio foi lapidar e analítica: “Não vejo muita gente de esquerda ali; de esquerda, proprio, não vejo. São pessoas respeitáveis e de qualidade, mas tenho dificuldade em defini-las como de esquerda”.
O diagnóstico público do autor e operador do sistema judiciário combina observação factual com juízo técnico: o fenômeno da virada do No, segundo ele, decorre do gradual esclarecimento do conteúdo da reforma e da percepção crescente dos riscos institucionais. Em termos jornalísticos, trata-se de um raio-x político: cruzamento de sondagens, declarações públicas e avaliação institucional sobre alterações constitucionais.
Em síntese, a intervenção de Carofiglio colocou em foco três eixos factuais e verificáveis: a evolução das intenções de voto medida por institutos como o Ixè, o papel da informação (e da desinformação) no processo decisório dos eleitores, e o potencial impacto da reforma sobre o funcionamento do CSM e dos mecanismos de governança judicial.
Apuração, cruzamento de fontes e precisão terminológica permanecem essenciais para acompanhar os próximos capítulos deste referendo, cujo desfecho poderá alterar padrões institucionais centrais do sistema jurídico italiano.






















