No final, conseguiram o seu lugar na foto. Os consiglieri regionali lombardi vão receber um pass para acessar a cerimônia de inauguração de Milano Cortina, marcada para 6 de fevereiro em San Siro. O presente chegou depois de uma negociação com a giunta e, sobretudo, horas após a aprovação em Conselho regional de um contestado maxi-prestito de 5 milhões de euros concedido à Fondazione Milano Cortina.
O episódio tem a marca da pressa: na terça-feira à tarde o subsecretário da Lega, Mauro Piazza, explicou ao plenário que a Fundação se encontrava em “máxima urgência” por recursos para garantir liquidez de caixa. A justificativa soa estranha diante da proximidade da inauguração e do fluxo de patrocínios e repasses públicos já anunciados ao projeto. Ainda assim, o empréstimo foi aprovado e, em seguida, veio o agrado institucional.
Na quinta-feira à noite, todos os eleitos receberam um e-mail confirmando o acordo entre a giunta de Attilio Fontana e a Fondazione, que prevê 100 cortesias para a cerimônia inaugural. Apesar de hesitações iniciais, a giunta decidiu conceder um bilhete por conselheiro, ficando com os restantes.
O cálculo é simples: o Conselho tem 80 membros; Attilio Fontana e Federico Romani (presidente do Conselho regional) já possuíam ingressos, o que torna 78 os tickets adicionais distribuíveis entre os partidos. A própria mensagem afirma que à Regione e às demais instituições foi reservado um setor inteiro em San Siro e que o pass é nominal e intransferível.
Feita a conta, a oportunidade de imagem dos conselheiros está salva, mesmo em cima da hora. Para quem acompanha a construção das decisões públicas como uma obra coletiva, trata-se de um novo tijolo colocado à vista: votação, financiamento extraordinário e, na esteira, a recompensa simbólica. O peso da caneta que assinou o empréstimo encontra agora um reflexo imediato nas cadeiras do estádio.
Críticos apontam a contradição entre o discurso de urgência econômica e a realidade de fluxos financeiros destinados aos Jogos: patrocínios privados, aportes de outros entes e o próprio calendário que aponta para a inauguração em alguns dias. Para cidadãos e contribuintes, a sequência levanta perguntas sobre prioridades e transparência — se o financiamento era realmente indispensável e por que a ajuda pública assumiu forma de empréstimo tão volumoso tão perto do evento.
Como repórter que busca ser ponte entre a arquitetura do poder e a vida cotidiana, registro que o episódio pode parecer uma pequena vitória protocolar para os políticos, mas revela alicerces frágeis na gestão dos fundos públicos para grandes eventos. O valor de 5 milhões de euros, o caráter de emergência alegado e a distribuição de cortesias formam um pacote que merece fiscalização: não apenas pela estética da foto no estádio, mas pelo efeito real no bolso dos cidadãos.
Ao leitor: acompanhe a cobertura. Nos próximos dias haverá filas, cerimônias e discursos. Cabe perguntar se, por trás do palco, foram derrubadas barreiras burocráticas necessárias ou erguidas atalhos que favorecem a visibilidade política em detrimento da clareza fiscal.






















