Por Giuseppe Borgo — A menos de 24 horas do evento anunciado, crescem as tensões em torno da conferência sobre remigração que o deputado da Lega Domenico Furgiuele organizou para a sala de imprensa da Câmara dos Deputados. Entre os convidados estão representantes de movimentos vinculados à extrema-direita, como CasaPound e outros grupos referidos nas redes como neofascistas ou neonazistas.
O presidente da Câmara, Lorenzo Fontana, qualificou o encontro como “inopportuno” e fez um apelo ao respeito pelas instituições: “Ritengo inopportuna la conferenza stampa di domani — sottolinea Fontana —. Rivolgo il mio appello alla responsabilità e al rispetto delle istituzioni”. Fontana também lembrou que, segundo as regras em vigor, a responsabilidade sobre conteúdos e convidados cabe aos parlamentares proponentes.
Apesar do recado institucional, Furgiuele confirmou a realização: segundo ele, não se trata de uma “remissão de pecados”, mas da apresentação de uma proposta de lei de iniciativa popular. Em suas palavras, citadas à imprensa, “Domani si presenta una legge di iniziativa popolare”; e ressaltou a presença de cidadãos que estariam arcando com despesas próprias para apresentar a proposta.
Em resposta direta a Fontana, o deputado da Lega afirmou que o presidente “não fala em nome do meu partido, ma ricopre il suo ruolo istituzionale” e fez menção a atritos anteriores, lembrando ter sofrido suspensão por sete dias em ocasiões passadas. O tom revela que, além da disputa política, há uma tensão interna sobre os limites do uso do espaço parlamentar como plataforma pública.
Quem levantou o alarme com antecedência foi a deputada Chiara Braga (Partito Democratico). Braga denunciou a presença de grupos que “si richiamano al fascismo e al nazismo” e destacou postagens nas redes sociais com frases de incitamento à violência — reproduzidas por organizadores e simpatizantes — como “la remigrazione la otterremo con le buone o con le cattive”. Para ela, permitir o encontro seria “una grave offesa alle istituzioni” e um precedente perigoso: o Parlamento não pode virar tribuna para ideologias de ódio.
O apelo foi dirigido ao chefe do grupo da Lega na Câmara, Riccardo Molinari, com a solicitação de persuadir Furgiuele a dar um passo atrás e cancelar o uso do espaço institucional.
Do lado verde e ambientalista, Angelo Bonelli (AVS / Europa Verde) classificou a iniciativa como um “fatto gravissimo” e um “oltraggio” à memória dos que construíram a Constituição, lembrando a obrigação de proteger os alicerces democráticos contra simbolismos e práticas neofascistas.
O capogruppo do M5S na Câmara, Riccardo Ricciardi, enviou carta a Fontana manifestando “indignazione e forte contrarietà”, sublinhando que a utilização da sala de imprensa por movimentos extremistas afeta a integridade institucional.
O episódio acende um debate maior sobre até onde a liberdade de expressão e a iniciativa parlamentar se estendem quando a retórica dos convidados inclui mensagens de ódio ou ameaças. A situação exige uma ponte entre o respeito às normas do Parlamento e a defesa da memória democrática — como se constrói uma casa, é preciso escolher os materiais: permitir plataformas a grupos extremistas pode corroer os alicerces das instituições.
Seguimos acompanhando: a conferência permanece marcada, os apelos por recuo aumentam e o peso da caneta do presidente da Câmara, em última instância, medirá até onde as normas internas e a pressão política conseguirão derrubar ou manter essa barreira burocrática contra ideologias violentas.






















