Por Chiara Lombardi — Em uma cena que parece saída de um roteiro sensível ao zeitgeist, Enrica Bonaccorti descreveu com emoção o abraço-surpresa que ganhou de Renato Zero durante o concerto de domingo, 25 de janeiro, no Palazzo dello Sport, em Roma. Em entrevista a La Vita in Diretta, apresentada por Alberto Matano, a apresentadora traçou o contorno íntimo desse encontro público que reverberou como um espelho do nosso tempo.
Sentada na plateia ao lado da filha Verdiana, Bonaccorti foi alcançada pelo cantor que a envolveu num abraço forte — um gesto simples e, ao mesmo tempo, carregado de história. “Não estou vivendo uma coisa bonita, mas Renato me fez uma grande surpresa”, declarou ela, ao lembrar que, apesar de manterem amizade de longa data, os dois não se viam com frequência. “No concerto ele me fez sentir uma rockstar, saudando o público em minha homenagem”.
O momento ganhou ainda mais significado por conta das palavras que Renato Zero dirigiu à plateia: ao falar sobre o poder das mulheres e sobre quem tem a voz silenciada, afirmou que precisava “dar um abraço a uma mulher” — referência clara ao difícil período que a apresentadora enfrenta desde o diagnóstico de câncer de pâncreas, anunciado em setembro passado.
Visivelmente emocionada, a veterana de 76 anos resumiu o impacto do gesto: “Este homem me roubou o coração para sempre”. Em seguida, assumiu um tom de gratidão ao comentar o afeto que tem recebido: “Estou exaltada por todo esse carinho”.
Ao falar com Alberto Matano sobre seu estado de saúde, Enrica adotou uma franqueza serena: “Somos muitos que temos algo que não vai bem, não sou a única. Agradeço por toda essa atenção, mas se faz o que se pode. Às vezes se está bem, às vezes mal, como nestes últimos dias”. A alternância entre fragilidade e resistência compõe, afinal, o roteiro íntimo desses dias.
Bonaccorti também evocou a memória da amiga Eleonora Giorgi, falecida em março passado após lutar contra o mesmo mal. A comparação não é apenas dolorosa; transforma o afeto público em um eco cultural — pequenas cenas que, como quadros de um filme, ajudam a recompor o sentido diante da perda e da solidariedade. “Como com Eleonora, muitas coisas belas estão acontecendo neste período; escrever tem me ajudado muito”, confessou.
O abraço de Renato não foi apenas uma efusão pessoal, mas um gesto com carga simbólica num tempo em que figuras públicas reconfiguram o debate sobre saúde, visibilidade e empatia. Para Enrica Bonaccorti, aquele instante no palco revalidou laços antigos e ofereceu um reframing da própria imagem pública: mais humana, menos invulnerável, porém envolta por um afeto que a fez sentir-se celebrada — uma verdadeira rockstar por alguns minutos.
Em um cenário de transformação individual e coletiva, a história de Bonaccorti nos lembra que os gestos singelos podem agir como lentes que ampliam o que é invisível: dor, amizade, memória e a resistência que nasce do cuidado alheio. É esse o roteiro oculto que, por vezes, a cultura popular nos permite ver.






















