Bruxelas — Após anos de hesitação táctico-diplomática, os Estados‑membros da União Europeia deram um passo decisivo: acordaram em incluir o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) na lista de organizações classificadas como terroristas pela UE. O anúncio foi feito ao término da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27.
Fontes presentes na reunião relataram que o movimento foi motivado pela escalada da repressão interna no Irã: relatórios recentes indicam mais de 30 mil manifestantes mortos desde o início das revoltas que agitram o regime. Para muitas capitais cautelosas, as sanções direcionadas a 15 pessoas e 6 entidades — aplicadas em fases anteriores — já se mostraram insuficientes. No total, as medidas restritivas da UE já alcançavam 247 indivíduos e 50 entidades; o novo passo altera, sobretudo, o estatuto político e simbólico do IRGC.
Durante o debate, delegados lembraram que a França havia anunciado apoio formal à iniciativa, por considerar que a impunidade pelos crimes cometidos não pode persistir. Ao chegar ao Conselho, o ministro francês destacou que é necessário «ir além» nas respostas políticas e legais. Também a Itália, até aqui tradicionalmente prudente, manifestou alinhamento: autoridades italianas confirmaram que existe um «consenso político», e que agora seguem as etapas administrativas para operacionalizar a decisão.
Se cumprir os prazos anunciados, nas próximas semanas a deliberação entrará em vigor. A consequência imediata prevista é o congelamento de bens pertencentes ao IRGC no território europeu. Na prática, porém, o impacto económico será limitado, porque a União já impusera vários níveis de restrições a membros e unidades dos pasdaran. As recentes inclusões enumeram comandantes do IRGC e oficiais de elevado escalão das forças policiais e de segurança do regime.
As implicações, contudo, transcendem o castigo patrimonial: trata‑se de um movimento que redesenha, até certo ponto, o mapa das relações políticas entre Bruxelas e Teerã. Embora autoridades tenham sublinhado que a decisão não encerra o diálogo — incluindo as negociações sobre o programa nuclear —, a medida altera os alicerces frágeis da diplomacia. O diálogo será agora jogado num tabuleiro em que as peças sofreram um reposicionamento claro.
No plano jurídico, a matéria vinha sendo debatida há anos: durante as primeiras grandes repressões desencadeadas após a morte de Mahsa Amini, os 27 adiaram uma decisão mais radical citando requisitos legais — em particular, a necessidade de precedentes judiciais que permitissem a classificação de uma organização como terrorista. A jurisprudência recente em alguns Estados‑membros abriu caminho para esta decisão comunitária.
Do ponto de vista estratégico, a inclusão do IRGC na lista de organizações terroristas é um movimento de alto simbolismo e previsíveis consequências políticas. Pode provocar retaliações diplomáticas de Teerã, limitar ainda mais canais de cooperação e complicar interlocuções sobre segurança regional. Por outro lado, envia uma mensagem clara sobre a disposição de partes importantes da Europa em responder com instrumentos jurídico‑políticos à repressão interna iraniana.
Como analista que observa a tectônica de poder internacional, vejo nesta decisão um lance calculado: não um xeque‑mate, mas uma jogada que altera as coordenadas do jogo. A estabilidade futura dependerá da habilidade das diplomacias em preservar vias de negociação essenciais — sobretudo as relacionadas ao controlo nuclear — mesmo quando os alicerces do relacionamento foram propositadamente comprimidos.
Marco Severini — Espresso Italia






















