Por Alessandro Vittorio Romano — Em meio ao rumor cotidiano das cidades e ao sopro das estações, há uma urgência silenciosa que pulsa longe dos holofotes: as doenças tropicais negligenciadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas convivem com essas enfermidades que, apesar de invisíveis para muitas prioridades de saúde globais, moldam vidas e paisagens humanas.
Instituída para lembrar o mundo desse desafio, a World NTD Day — Giornata Mondiale delle Malattie Tropicali Neglette — acontece em 30 de janeiro. É um convite a deslocar o olhar: das grandes emergências midiáticas para as condições crônicas que corroem bem-estar, trabalho e futuro em comunidades inteiras.
A OMS classifica as NTDs em 21 grupos de doenças, majoritariamente provocadas por parasitas, como elmintos e protozoários. Embora tradicionalmente associadas a regiões tropicais e subtropicais com poucos recursos, algumas dessas doenças já deixaram o mapa restrito: chegam também a países de alta renda — inclusive a Itália — e representam um chamado concreto para a Europa.
Um estudo italiano, cobrindo 2011 a 2016, registrou 7.375 diagnósticos de doenças tropicais negligenciadas. Entre os quadros mais frequentes estavam a leishmaniose (2.510 casos), a esquistossomose (2.129), a strongiloidíase (925), a doença de Chagas (598), a dengue (613), além de teníase/cisticercose (358) e filariose (243). Números que soam como sementes plantadas em solos ignorados — silenciosas, porém com raízes profundas.
Algumas dessas doenças fazem parte do grupo das arboviroses: vírus transmitidos por mosquitos do gênero Aedes, como a dengue e a chikungunya. No nosso país, essas arboviroses já contam com sistemas de vigilância específicos, mas as NTDs não se limitam a elas. A diversidade de agentes patogênicos e modos de transmissão exige um olhar amplo — que vá do controle vetorial às políticas socioambientais, da capacitação do sistema de saúde à inclusão das comunidades afetadas.
Viver à sombra dessas doenças é enfrentar uma paisagem de desigualdades: saneamento inadequado, falta de diagnóstico precoce, acesso reduzido a tratamentos e conhecimento público pouco difundido. A resposta eficaz pede, portanto, uma colheita de políticas coordenadas, pesquisa aplicada e financiamento contínuo — como uma horta que precisa de água regular para não minguar.
Do ponto de vista europeu, a presença de NTDs em territórios de alta renda é um lembrete de que fronteiras climáticas e sociais estão mudando. Migrações, viagens, alterações climáticas e a expansão de vetores como o Aedes redesenham os riscos. A vigilância epidemiológica deve ser sensível a essa respiração da paisagem: antecipar, detectar e agir antes que a emergência se torne visível demais.
Ao comemorarmos a World NTD Day, a mensagem é dupla: reconhecer a dimensão humana dessas doenças e reivindicar investimentos práticos. Não se trata apenas de estatísticas, mas de rostos, rotinas interrompidas e horizontes encurtados. O olhar público precisa aproximar-se, com empatia e ciência, para que a invisibilidade ceda espaço a respostas reais.
Para cidadãos, profissionais e gestores, o convite é simples e urgente: promover educação em saúde, fortalecer a vigilância e integrar ações ambientais e sociais. A cura parcial ou total de muitos desses males passa pela transformação do cotidiano — pela respiração mais limpa das cidades, pelo saneamento que floresce e pela atenção que planta esperança.
Em suma, as doenças tropicais negligenciadas não são apenas um problema distante. Elas são uma janela sobre como cuidamos do nosso tecido social e ambiental. Ouvir essa emergência invisível é, antes de tudo, um gesto de cuidado coletivo.





















