Por Chiara Lombardi — Em uma noite que virou espelho do nosso tempo entre tradição e espetáculo, o Royal Opera House de Covent Garden viveu terça-feira uma cena incomum: o tenor Roberto Alagna teve um mal-estar e foi obrigado a abandonar o terceiro ato de Turandot. A falta de um substituto disponível desencadeou vaias, protestos e um debate público sobre expectativas e responsabilidade institucional.
Sem outro tenor para assumir o papel de Calaf, a direção do teatro, após pedir desculpas ao público, confiou o canto a Richard Hetherington, chefe da área musical, que passou a interpretar o papel a partir dos bastidores. A decisão gerou reações fortes entre os presentes: houve quem viesse a sair da sala, quem vaiou e até relatos de objetos arremessados em direção ao palco. A situação foi agravada pelo corte da ária mais célebre de Puccini, Nessun Dorma, justamente o motivo que muitos pagam para ouvir.
“Há quem me diga que Turandot é muito mais do que Nessun Dorma, lamento discordar: quem vai à ópera espera essa ária”, disse ao Times Dan Bevan, um geólogo do Oxfordshire que nunca havia assistido a uma ópera e pagou 900 libras por dois ingressos — cifra que sublinha o contraste entre a experiência esperada e o desencontro daquela noite. Nas redes sociais, a narrativa se dividiu: houve elogios ao arrojo de Hetherington, que atua ocasionalmente como regente no teatro e cuida da equipe musical, e críticas ao que foi visto como falta de preparo institucional.
Para Kate Daly, de Richmond, o episódio “mostrou o melhor e o pior do público britânico”. Segundo ela, revelou-se, num só quadro, “os caprichos de quem ocupa as poltronas de frente e o heroísmo de um profissional que foi catapultado para o palco em circunstâncias impossíveis”. A coreografia da cena também chamou atenção: enquanto Hetherington cantava de trás dos bastidores, a coreógrafa interpretou visualmente a presença de Alagna no palco — um reframe teatral que transformou o vazio em imagem.
O Royal Opera House ofereceu reembolso de 50% do valor dos ingressos, descrevendo o ocorrido como “uma situação extremamente rara” e desejando pronta recuperação ao tenor, um dos mais renomados do cenário lírico mundial. Hetherington, após a improvisada atuação, deverá retornar às suas funções habituais; ironicamente, na próxima semana ele já estava escalado como maestro de uma apresentação de Turandot destinada a estudantes.
Esta noite em Covent Garden não foi apenas um incidente médico: foi um episódio que expõe o roteiro oculto das expectativas culturais em torno da ópera — onde a memória de uma ária como Nessun Dorma pesa tanto quanto a responsabilidade logística de um teatro centenário. A cena persiste na imagética do público e da crítica: entre o afresco do luxo e a urgência humana, emergiu um pequeno drama que diz muito sobre como consumimos, lembramos e exigimos espetáculo.
Desejamos a Roberto Alagna rápida recuperação e seguimos observando como instituições culturais adaptam seus bastidores ao imponderável — esse elemento tão cinematográfico que insiste em reaparecer justo quando o roteiro parecia mais previsível.


















