Por Chiara Lombardi — Observadora cultural da Espresso Italia
No palco simbólico do Kennedy Center, que durante décadas funcionou como espelho do nosso tempo artístico, desenha‑se um novo conflito entre política e música. No centro desse cenário está Gianandrea Noseda, maestro italiano de 61 anos que dirige a National Symphony Orchestra há dez anos. A orquestra, financiada com verba federal, enfrenta um boicote crescente motivado por mudanças na direção do centro cultural e pela associação pública com o atual presidente, Trump.
O ponto de inflexão foi um gesto dramático: o compositor Philip Glass, pai do minimalismo, de quase 90 anos, retirou do programa a sinfonia que lhe fora encomendada seis anos antes pela National Symphony em homenagem a Abraham Lincoln. Esse anúncio somou‑se a outras ausências notáveis — a soprano Renée Fleming e a própria Washington National Opera suspenderam espetáculos no centro — como forma de protesto contra a nova liderança do Kennedy.
O novo conselho de administração, apontam reportagens de grandes jornais, reúne pessoas muito próximas ao presidente. As mudanças simbólicas e administrativas desencadearam boicotes e uma queda acentuada no público: um recuo de cerca de 50% nas presenças, segundo músicos e diretores, que agora lutam para recuperar a confiança da plateia.
Em meio a essa turbulência, Noseda optou por resistir. Longe de posturas inflamadas, seu discurso é de foco na arte: “Estou tentando manter a concentração e ressaltar o valor da música. Porque é isso que importa”, declarou. À sua retaguarda, os cem músicos da orquestra — cujo contrato é viabilizado por um orçamento federal estimado em 10 milhões de dólares — afirmam: “Não vamos embora; este é o nosso lar há 55 anos.” Sair equivaleria a pôr em risco sua existência profissional e cultural.
O papel do maestro, aqui, não é apenas reger partituras, mas atuar como guardião da tradição e estrategista de reencantamento do público. Noseda, que já viveu rupturas institucionais (como sua saída do Teatro Regio de Turim em 2014), concentra esforços em manter a excelência musical e ampliar o alcance social da orquestra — levando concertos a periferias e população que raramente frequentam salas clássicas. É um trabalho que tem mais a ver com preservar tessituras coletivas do que com declarações públicas.
Há, sob essa disputa, um roteiro oculto da sociedade: quando instituições culturais se tornam palcos de poder, a plateia e os artistas respondem com ausências, protestos e retiradas simbólicas. O desafio de Noseda é transformar esse reframe em oportunidade — recuperar espectadores, reafirmar a qualidade artística e proteger a orquestra do varejo político que, por vezes, tenta instrumentalizar o patrimônio cultural.
Seja qual for o desfecho, o episódio revela uma metáfora mais ampla: a música como espelho, que reflete tensões e, ao mesmo tempo, oferece caminhos para reconstituição comunitária. Noseda escolhe ficar. Não por neutralidade cínica, mas por convicção: salvar a música é, para ele, preservar um campo de experiência comum que resiste às manobras do poder.
Enquanto o público retorna vagarosamente às poltronas e a orquestra busca reconduzir sua narrativa artística, permanece a pergunta provocadora — e necessária — que ecoa pelos corredores do Kennedy Center: qual é o papel das grandes instituições culturais quando o roteiro político tenta reescrever suas cenas?





















