Olschki, a histórica casa editorial que atravessa três séculos, abre 2026 com uma celebração que é ao mesmo tempo memória e projeção. Guiada hoje pela quinta geração, representada por Daniele e Gherardo Olschki, a editora comemora 140 anos de atividade com um calendário extenso de exposições, encontros e eventos concebidos para fazer dialogar a sua tradição com as novas perspectivas do livro, do saber e da responsabilidade cívica.
As celebrações, organizadas em parceria com o Comune di Firenze, Assessorato alla Cultura, e com o Patrocinio da Regione Toscana, terão momentos centrais em Palazzo Vecchio, ponto simbólico onde memória urbana e políticas culturais se encontram. «Centoquaranta anni non sono solo un numero», afirma a sindaca de Florença, Sara Funaro, ressaltando como a história da editora está enraizada na identidade cultural da cidade e no papel do livro como instrumento de conhecimento e formação de cidadãos críticos.
A trajetória da editora começa em 1883 com Leone Samuele Olschki, filho de um tipógrafo judeu da Prússia Oriental, que decide migrar para a Itália atraído pela vitalidade intelectual do país. Jovem bibliófilo e poliglota, Leo inicia sua aventura profissional na livraria antiquária Münster, em Verona, onde constrói uma notável coleção de textos dantescos — já em 1885 ele oferece parte desse acervo a bibliotecas americanas, sinalizando desde cedo a vocação internacional da casa.
Ao longo de guerras, transformações tecnológicas e rupturas culturais, a história da Olschki se revela como um espelho do nosso tempo: uma editora que investe na preservação da humanitas e no compromisso público do saber. A proposta das comemorações é, justamente, criar um reframe dessa narrativa — não apenas celebrando o passado, mas interrogando os desafios do presente e as possibilidades do futuro do livro como tecnologia cultural.
O programa de 2026 inclui mostras de edições históricas, mesas-redondas com pesquisadores sobre políticas editoriais, leituras públicas, seminários sobre patrimônio editorial e iniciativas direcionadas às novas gerações de leitores e editores. Haverá também projetos que cruzam as linguagens do livro com as artes visuais e a mídia digital, num movimento que pretende iluminar o «roteiro oculto» que liga uma história familiar de editores às transformações maiores do campo cultural.
Como analista cultural, vejo nesta celebração um convite a pensar a editoria como cenário de transformação: a longevidade da Olschki não é mero acerto de mercado, mas um testemunho sobre como o livro funciona como lente de interpretação da realidade social. Em tempos nos quais a circulação de informação é acelerada e a memória coletiva corre riscos, a existência contínua de instituições como a Olschki afirma a importância de processos editoriais que priorizem qualidade, contexto e responsabilidade.
As iniciativas em Florença prometem ser mais do que eventos comemorativos; serão um laboratório público para discutir futuro e memória, numa cidade que já foi palco de muitas convergências intelectuais. Ao celebrar 140 anos, a Olschki convida leitores, pesquisadores e cidadãos a revisitar o papel do livro como objeto de formação e como elemento-chave na construção de uma esfera pública consciente.
Em um mundo onde o entretenimento frequentemente mascara o substantivo do saber, a história da Olschki permanece um lembrete: a cultura é um investimento coletivo cuja continuidade exige cuidado, diálogo intergeracional e uma visão que ultrapasse o imediato. Serão meses de encontros que funcionam como pequenas cenas de um filme maior — uma narrativa que reconstrói, no presente, as condições de possibilidade para o futuro do livro.






















