Chiara Lombardi para Espresso Italia — Na tarde de 29 de janeiro de 2026, a Casa della Cultura abre as portas para uma exposição que funciona menos como vitrine e mais como um espelho do nosso tempo: Arte Ellittica. O projeto propõe a Ellisse — com seus dois focos e sua geometria alongada — como um novo paradigma crítico para interpretar a criatividade, as sociedades contemporâneas e a presença onipresente da inteligência artificial num cenário que o curador define como dos Equilibri Instabili.
Como observadora cultural, confesso que há algo de cinematográfico nessa proposta: a elipse age como plano-sequência que desloca o centro de atenção, conjugando riscos e silêncios, pistas e sombras. Em vez do círculo monocêntrico — a narrativa concentrada, homogênea —, a Ellisse abre janelas duplas de leitura. É um reframe da realidade onde cada obra funciona como um pequeno roteiro, sugerindo trajetórias e elisões mais do que certezas.
A curadoria escolheu artistas de matrizes diversas para testar esse paradigma. A mostra reúne trabalhos que evitam tanto o enunciado panorâmico quanto o hermetismo autorreferente; elas se situam na elasticidade do que se pode dizer e do que permanece à beira do visível. O projeto recupera, aliás, um conceito crítico já formulado por Strano, que contrapõe a Opera Ellittica à Opera Aperta de Umberto Eco — não para fechar sentidos, mas para modular a definição sem anulá-la.
Os artistas presentes incluem nomes como ANJU ACHARYA (Índia, 1992), IRENE AGRIVINA (Indonésia, 1976), GIULIO ALVIGINI (EU/IT, 1995), MASAYUKI ARAI (Japão, 1984), TAMARA BIALECKA (Suíça, 1965), DARIO BURATTI (EU/IT), KAUR CHIMUK (Índia, 1969), DZINGAI FRANKLYN (Zimbabwe, 1988), JULIA FULLERTON-BATTEN (Inglaterra, 1970), DAN HALTER (Zimbabwe, 1977), KALINA HORON (EU/PL, 1992), LAI JUNJIE (China, 1991), TIZIANA LORENZELLI (EU/IT, 1961), MILTOS MANETAS (EU/GR, 1964), ANDREW ROSS (US, 1989), ELENA SANTORO (EU/IT, 1979), MARIAM ABOUZID SOUALI (Marrocos, 1989), MORGANE TSCHIEMBER (EU/FR, 1976), HE WEI (China, 1987) — e, em presença simbólica e quase dissonante, MARCO ALMAVIVA (EU/IT, 1934).
Essa pluralidade de origens e genealogias não é mero catálogo exótico: ela é a evidência de que a Arte Ellittica nasce exatamente onde múltiplos focos se atraem sem se confundir. Cada artista atua como um polo de atração, um unicum que convive com outros — compatível, mas impossível de se sobrepor. A mostra, assim, não propõe unanimidade estética, e sim um movimento novo: não somente um novo movimento plástico, mas um movimento de ideias, de pensamento e de leitura crítica.
No tempo da globalização e da massificação algorítmica, a elipse revela-se útil enquanto metáfora da comunicação contemporânea: ela patrocina a elasticidade e a ductilidade exigidas por uma era em que os sentidos se deslocam rapidamente entre o humano e o técnico. As obras expostas atuam como dispositivos semióticos, cada uma oferecendo pistas para ler o que chamamos de contemporâneo — como se cada tela, instalação ou imagem fosse uma sequência de close-ups que, juntos, compõem um filme fragmentado.
Visitar Arte Ellittica é, portanto, aceitar um convite à atenção ativa. É perceber que, num cenário de equilíbrios instáveis, o olhar crítico precisa se mover na órbita dos dois focos da elipse — atento às tensões, aos vazios e às réplicas digitais. Mais do que entretenimento, a mostra é um exercício de pensamento: um roteiro oculto que nos força a perguntar o “porquê” por trás das formas e das tecnologias que moldam nossas percepções.
Informações práticas: abertura em 29 de janeiro de 2026, às dependências da Casa della Cultura. Uma exposição que, como todo bom filme, pede várias sessões e leitura repetida.





















