Cuori retorna à Rai1: o coração da medicina nos anos 70
Do dia 1º de fevereiro, a série Cuori volta à Rai1 em seis episódios de prime time, trazendo de novo à cena a tensão entre ciência e emoções num cenário histórico que funciona como um verdadeiro espelho do nosso tempo. A ficção, ambientada no início dos anos 1970, acompanha um grupo de médicos que ousou imaginar um futuro quando ainda faltavam certezas — e esse descompasso entre risco e esperança é o roteiro oculto da série.
O diretor Riccardo Donna retorna ao comando pela terceira vez consecutiva e confessa ter-se encantado pelo projeto desde o início: “É a primeira vez que me acontece e não me canso”, disse na conferência de apresentação. Donna definiu o clima do set como quase mágico e afirmou que, se adoecesse, gostaria de ser tratado num lugar como o mostrado em Cuori. Essa sensação de imersão coletiva traduz a força da produção, onde direção, cenografia e figurino compõem um eco cultural que remete ao cinema de época sem perder a atualidade.
O novo arco da narrativa é situado em 1974, ano crucial para os rumos da medicina e do país. Simona Coppini, headwriter da ficção, explica que a escolha do ano se deve à transformação da cirurgia cardíaca: os cardiologistas começam a entrar na sala de operação, mudando protocolos e mentalidades. Na prática dramática, isso se traduz em novidades técnicas — como a introdução do desfibrilador portátil e os primeiros ensaios de angioplastia — que confrontam práticas consolidadas e dilemas éticos.
No centro humano dessa transição estão Delia Brunello, interpretada por Pilar Fogliati, e Alberto Ferraris, vivido por Matteo Martari. A dupla, dividida entre paixão e escolhas profissionais dolorosas, vive uma disputa íntima entre ambição científica e desejo pessoal. Pilar descreve Delia como uma mulher que enfrenta dois desejos antagônicos: ter um filho com o marido, Dr. Ferraris, e manter-se fiel à sua missão científica — um conflito ampliado pelo contexto do referendo do divórcio na Itália.
Martari, por sua vez, define Alberto como alguém que encarna “a eterna tensão entre consciência, razão e coração”: um personagem cuja generosidade emocional complica decisões clínicas e afetivas. A chegada de um novo chefe de serviço, interpretado por Fausto Maria Sciarappa, mais cauteloso, promete abalar os equilíbrios internos do hospital.
Entre as novidades de elenco, destaca-se a entrada de Giulio Scarpati, que dará vida a um sensitivo carismático — figura destinada a abalar a fé cega na ciência vigente na história. Scarpati disse ter se divertido a imaginar-se nesse papel e elogiou a liberdade criativa do projeto.
Em tom de anedota, os atores também comentaram o mergulho estético nos anos 70: figurinos, cenários e até os famosos pantalonas contribuem para transportar o público a uma época que se reformula diante dos avanços médicos e das tensões sociais. Cuori mostra, com elegância e densidade, que entretenimento pode ser um palco para interrogarmos a memória coletiva — é a semiótica do drama transformando-se em comentário social.
Para quem acompanha a série, a terceira temporada promete não só avanços técnicos no enredo, mas um aprofundamento das contradições humanas que movem qualquer grande narrativa: amor, ciência e o roteiro oculto da história. Imperdível para quem lê a cultura pop como lente do presente.






















