Por Marco Severini — Em um diagnóstico de natureza geopolítica e estratégica, Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, sinaliza um risco estrutural ainda pouco considerado pelos mercados e pela classe política: a erosão da influência dos Estados Unidos no mundo. Em seu relatório Top Risks 2026, Bremmer sustenta que, embora investidores se concentrem em inflação, juros e crescimento, há um estresse sistêmico emergente alimentado pela política interna norte-americana que pode redesenhar fronteiras invisíveis de poder.
Segundo Bremmer, o retorno de Donald Trump à Casa Branca trouxe um padrão de atuação cada vez mais unilateral, de horizonte curto e essencialmente transacional. Essa abordagem, ainda que orientada por objetivos coerentes, apresenta fragilidade na execução — um problema tão perigoso quanto a intenção política em si. “Os impulsos são coerentes”, observa Bremmer, “mas a implementação não tem sido estratégica”. No tabuleiro das relações internacionais, é como executar jogadas ambiciosas sem consolidar o controle das casas centrais: resultados erráticos e oportunidades desperdiçadas.
O analista aponta episódios recentes como sintomas dessa dinâmica: da tentativa de intervenção na questão da Groenlândia às ondas de políticas tarifárias, até recuos institucionais em solo doméstico. O recuo da Immigration and Customs Enforcement (ICE) em Minneapolis, após o assassinato de dois cidadãos, e o constante risco de um shutdown do governo federal são interpretados por Bremmer como manifestações de uma presidência enfraquecida e de um desrespeito pragmático às instituições democráticas que provoca reações duras, inclusive dentro do próprio Partido Republicano.
Essa perda de autoridade internacional, sublinha Bremmer, reduz com o tempo a capacidade de Washington de moldar alianças, normas e fluxos econômicos. Há um movimento de rebalanço estratégico dos aliados, que buscam diminuir sua exposição excessiva aos Estados Unidos, o que acentua a vulnerabilidade americana em termos de influência — uma tectônica de poder em lento, porém constante, deslocamento.
No aspecto econômico, o quadro é mais resiliente do que muitos antecipavam. Apesar de tarifas, pressões sobre instituições como o Federal Reserve e um aumento geral do risco geopolítico, a economia norte-americana evitou, até agora, uma recessão. Bremmer qualifica esse desempenho como uma combinação de força real e de postergação de custos. Porém, adverte, o déficit federal segue sendo um problema estrutural que limita a margem de manobra e compromete a sustentação do poder material americano.
Politicamente, a série de reações ao redor das iniciativas da Casa Branca — reações privadas e públicas do Congresso, mobilizações locais e o crescente desgaste da presidência — elevam a probabilidade de perda de poder legislativo, como uma possível perda da Câmara nas eleições de meio de mandato. No xadrez da geopolítica, cada concessão interna transforma-se em uma casa enfraquecida no tabuleiro externo.
Em síntese, Bremmer chama a atenção para um risco que transcende ciclos econômicos: a progressiva erosão da posição dos Estados Unidos como articulador de instituições e regras globais. Para o analista, a matéria-prima dessa instabilidade é menos a política externa declarada e mais a incapacidade de traduzi-la em ação sustentada e estratégica. Estamos diante de alicerces frágeis da diplomacia, em que impulsos de poder não consolidados podem gerar uma nova arquitetura de influência — menos favorável a Washington e mais propícia a um mundo multipolar e contestado.
Como observador das estruturas de poder, é imperativo ler esses sinais com atenção: o risco que Bremmer descreve não é uma tempestade única no horizonte, mas um lento redesenho das condições de jogo, com implicações para investimentos, alianças e estabilidade global. Operar sem essa visão é perder de vista a verdadeira peça que move o tabuleiro.






















