Por Marco Severini — Em mais um movimento calculado no tabuleiro da geopolítica, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan colocou-se novamente na posição de mediador ao propor uma cúpula a três com os EUA e o Irã para impedir um confronto aberto. Segundo relatos do jornal Hurriyet, a oferta foi transmitida diretamente ao presidente Donald Trump numa chamada ocorrida na noite de 27 de janeiro, com reação inicial positiva por parte do líder americano.
Oficialmente, nem Washington nem Teerã confirmaram uma resposta formal, mas sinais diplomáticos indicam que a peça foi movimentada no tabuleiro. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, manteve contato telefônico com o ministro turco Hakan Fidan e está previsto desembarcar em Ankara amanhã para prosseguir conversas.
A lógica de Ancara é pragmática e ancorada em interesses regionais concretos: evitar tanto que o Irã seja alvo de bombardeios quanto que os EUA saiam publicamente derrotados. Como disse o próprio Fidan, é preciso que as diplomacias se sentem “à mesa e enfrentem os dossiês um a um”. Trata-se de um convite à técnica da desmontagem paciente dos nós — um processo que requer tempo, paciência e reconhecimento dos limites do poder coercitivo.
Nos bastidores, Ancara intensificou contatos entre 13 e 20 de janeiro tanto com os americanos quanto com os iranianos, num esforço para desescalar uma crise que apontava para o conflito. A posição turca é, em muitos aspectos, de guarda-fronteira: apesar da relação complexa com os aiatolás, a estabilidade e a unidade do Irã interessam a Turquia para impedir fluxos massivos de refugiados e a transbordamento de instabilidade pelas suas fronteiras.
Entre as demandas que complicam qualquer acordo estão as colocadas pela Casa Branca: fim do programa de enriquecimento de urânio, encerramento de instalações nucleares, abandono do desenvolvimento de mísseis de longo alcance e uma mudança na postura iraniana em relação a Israel. O último ponto é particularmente sensível para Ancara, pois intersecta com dinâmicas eleitorais em Jerusalém — as eleições de outubro e a campanha do primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu aumentam a pressão por resultados duros contra os aiatolás.
Antecipando um cenário de desordem, o Exército turco anunciou medidas de segurança reforçadas ao longo da fronteira com o Irã. Além disso, foi confirmado um plano de contingência para um colapso do regime iraniano que prevê a criação de uma zona tampão (buffer zone) ao longo dos aproximadamente 500 quilômetros que separam os dois países. A intenção é mitigar afluxos de refugiados e reduzir o risco de surgimento de grupos separatistas, como o Pjak, nas áreas fronteiriças.
Do ponto de vista estratégico, a proposta de Erdogan funciona como um movimento defensivo que busca preservar alicerces frágeis da diplomacia regional: evitar um ataque que desestabilize toda a tectônica de poder e ao mesmo tempo dar uma saída digna aos EUA. Ainda assim, a mediação é intrinsecamente difícil — os interesses, as demandas públicas e as pressões eleitorais fazem do processo uma sequência de jogadas de alta precisão. Ancara sabe que, num tabuleiro deste calibre, cada peça deslocada exige previsões sobre múltiplos lances futuros.
Enquanto esperam-se respostas formais, o protagonismo turco reafirma uma ambição clara: posicionar-se como ator indispensável para conter uma escalada que poderia redesenhar fronteiras invisíveis de influência no Oriente Médio.






















