Can Yaman recebeu hoje um alívio institucional: os resultados dos exames a que foi submetido pela polícia turca — urina, sangue e cabelo — indicam que o ator não consumiu substâncias ilícitas. O desfecho, confirmado pelos laudos forenses, encerra temporariamente a incógnita aberta com sua breve detenção em 10 de janeiro num estabelecimento de Istambul.
O episódio, que teve repercussão internacional, compõe um movimento mais amplo no tabuleiro da ordem pública em Istambul. Há cerca de dois meses as autoridades turcas intensificaram investigações sobre festas e encontros em ambientes vip da metrópole do Bósforo, numa operação cuja tectônica de poder abrange jornalistas, influenciadores e figuras do espetáculo. Entre os nomes citados pela mídia local está o presidente do Fenerbahçe, Sadettin Saran, um episódio que sinaliza o alcance e a sensibilidade política dessa investigação.
Detido e liberado na mesma noite de 10 de janeiro, Can Yaman regressou à Itália no dia 11 e, naquele dia, publicou em seu Instagram uma fotografia em frente ao Coliseu para comunicar seu retorno. Na rede social, o ator afirmou que a imprensa turca tem sido dura com ele e pediu que a imprensa italiana evitasse reproduzir sem filtro as informações que saem do Bósforo: ‘Se fosse minimamente verdadeiro, eu não teria sido liberado tão rápido e não teria conseguido voltar à Itália no dia seguinte’, escreveu.
Os exames laboratoriais que confirmaram o resultado negativo para uso de drogas são determinantes para a sua posição formal no processo. Ainda assim, os laudos do Instituto de Medicina Forense permanecem como peça central para encerrar quaisquer dúvidas jurídicas e de reputação que possam persistir nas próximas semanas.
O caso de Yaman deve ser lido em duas camadas: a imediata, ligada à sua biografia pública, e a estrutural, que revela as fraturas do ambiente midiático e do aparelho de segurança em torno das elites culturais turcas. O ator, formado em Direito, ex-aluno de um exclusivo liceu italiano em Istambul, e adepto declarado do Besiktas, percorreu uma trajetória atípica. Antes de se tornar rosto conhecido, aos 24 anos ainda escrevia artigos sobre temas fiscais para o diário Dunya; posteriormente, um convite inesperado durante um casamento em Moscou o levou a uma pequena participação televisiva que deflagrou uma carreira meteórica.
Na encenação pública, Yaman encarnou papéis que o catapultaram ao estrelato: de produções televisivas de grande alcance — como Bitter Sweet, DayDreamer e Mr. Wrong — até assumir uma versão moderna da figura de Sandokan, posição que o colocou no centro de atenções do mercado de entretenimento turco e internacional.
Para analistas da cena internacional, este episódio é uma peça a mais no redesenho das fronteiras invisíveis entre mídia, poder e justiça na Turquia contemporânea. Como num jogo de xadrez, cada movimentação da polícia e cada vazamento jornalístico alteram a posição relativa dos atores, exigindo respostas calibradas que preservem reputações sem sacrificar a investigação. A vitória momentânea de Yaman, marcada pelo resultado negativo, não apaga a tensão estrutural que as investigações vêm expondo.
Em termos práticos, com os exames laboratoriais contrários ao consumo de drogas, resta agora aguardar os passos formais das autoridades: se o inquérito seguirá com novas diligências ou se serão arquivadas as menções relativas à sua pessoa. Até lá, o episódio permanece como um lembrete das fragilidades institucionais e da rapidez com que um nome em evidência pode tornar-se peça central de uma disputa de narrativas.
Marco Severini, Espresso Italia — análise de geopolítica cultural e dinâmica de poder.





















